[weglot_switcher]

O grande “ataque” de Trump ao capitalismo e ao mercado livre

Críticos dizem que há um “ataque” ao mercado livre e que o país marcha rumo a um “capitalismo de Estado à USA”. Medidas são comparadas às tomadas pelo Partido Comunista Chinês.
29 Agosto 2025, 08h00

A responsabilidade social de uma empresa é aumentar os seus lucros. A ideia foi cunhada em 1970 por Milton Friedman, economista da Universidade de Chicago, escola conhecida por defende que o Estado deve manter-se o mais longe possível da economia.

Eis que chega Trump 2.0, 55 anos depois da doutrina Friedman, com algo a mudar na pátria de Wall Street e nas políticas de mercado livre. OEstado norte-americano está a trabalhar ativamente para influenciar a estratégia de várias grandes empresas na área dos chips.

A mais recente é a Intel, onde o governo federal comprou uma participação de 10% numa das maiores fabricantes de chips dos EUA. A participação está avaliada em quase 9 mil milhões de dólares, que será paga com dinheiro público.

Mas há mais a caminho, prometeu. “Vou fazer negócios destes para o nosso país sempre que puder”, disse Donald Trump, qualificando de “estúpidos” os que criticam a medida.

As críticas têm surgido de vários quadrantes, incluindo do Partido Republicano.

“A Intel vai tornar-se num exemplo do que não se deve fazer”, reagiu Nikki Haley, ex-embaixadora de Trump na ONU que esteve na administração da Boeing.

O governador da Califórnia, o estado natal da Intel, nativa de Silicon Valley, comparou a ação de Trump ao do Partido Comunista Chinês.

“A nacionalização de indústrias privadas é algo em que são muito bons na China”, disse Gavin Newsom, considerando que Xi Jinping estava a “adorar” este episódio. “Nacionalizaram a Intel. Isto enoja-me”, afirmou citado pelo “Politico”.

Um artigo de opinião na “Fortune” assinado por vários gestores de topo concluiu que: “Trump está a atacar o capitalismo de mercado livre”.

“Parece que o movimento MAGA está a tornar-se marxista, ou mesmo maoista”, através de ataques pessoais a empresários, atacando a liberdade de expressão de gestores, ou “aparente extorsão de empresas”.

No “Wall Street Journal”, o jornalista Greg IP escreveu que os “EUA marcham para o capitalismo de Estado com características americanas… o presidente Trump está a imitar o Partido Comunista Chinês ao alargar o controlo político à economia”.

E isto tudo num momento em que a popularidade de Donald Trump anda pelas ruas da amargura ao fim de oito meses de mandato. Em várias sondagens, a popularidade do presidente norte-americano continua a descer e a bater mínimos face a outros presidentes.

Há umas semanas, outros fabricantes de chips – a Nvidia e a AMD – acordaram em pagar 15% das suas receitas ao governo federal em troca de obterem autorização para exportar chips de IA para a China.

Vários peritos de segurança, incluindo alguns que serviram Trump no seu primeiro mandato, escreveram uma carta aberta ao governo a expressar a sua “preocupação profunda” por o chip H20 da Nvidia ser um “acelerador potente” das capacidades de IA da China.

As críticas também vieram da base de apoiantes de Trump. “Não se pode ser só contra o comunismo quando a esquerda o faz. Se apoias o comunismo, então apoias Donald Trump”, disse à BBC o radialista conservador Erick Erickson.

Também o think-tank Cato Institute, conhecido pelas suas posições à direita, deixa críticas. “As decisões de investimento agora vão ter de ser tomadas com base em política e não em economia. Isto é injetar o governo diretamente no sangue do processo de decisão de uma grande empresa”, segundo o analista Tad DeHaven.

Como os tempos mudam. Na década de 80, a Chrysler pediu um resgate ao governo federal e o então líder da lendária marca automóvel de Detroit deixava críticas aos republicanos.

“Se a crise da Chrysler tivesse tido lugar durante uma administração republicana, a companhia teria ido à falência”, disse o lendário gestor de Detroit Lee Iacocca, ele próprio um republicano. “Os democratas foram os únicos com suficiente pragmatismo para fazer o que era necessário”.

Existe um histórico de compra de participações em empresas, mas somente em tempo de apuros, como durante a crise financeira de 2008/2009 quando o governo liderado pelo democrata Barack Obama entrou no capital de vários bancos de Wall Street com o objetivo de estabilizar o sistema.


Copyright © Jornal Económico. Todos os direitos reservados.