O herói e a lição

Gouveia e Melo é um militar que cumpriu uma ordem na perfeição, mas que nos mostrou muito mais do que isso. Mostrou que um país do Sul consegue dar exemplos de eficiência ao Norte da Europa e a todo o mundo.

Foi difícil para muitos portugueses digerir os vastos elogios feitos ao vice-almirante Gouveia e Melo, eleito pela maioria como herói nacional. Gouveia e Melo cumpriu exemplarmente com a tarefa que lhe foi pedida, é um facto. Há quem o veja como um ato normal de quem executou bem o seu trabalho, mas a maioria olha para esta questão com um lado 99% emocional, que obviamente a pandemia nos trouxe. Ambos os lados têm razão.

Gouveia e Melo é um militar que cumpriu uma ordem na perfeição, mas que nos mostrou muito mais do que isso. Mostrou que Portugal pode sair do mau para o muito bom, que a regra do “um por todos e todos por um” não existe só na ficção e que um país do Sul consegue dar exemplos de eficiência ao Norte da Europa e a todo o mundo.

Somos pequenos, é verdade, e a tarefa era mais fácil em Portugal do que num país da dimensão dos Estados Unidos, por exemplo, que enfrenta um desafio particularmente difícil na vacinação e que obrigou a administração Biden a tomar medidas polémicas.

Temos ainda a questão cultural a nosso favor, porque somos mesmo um povo de “brandos costumes” e isso não é necessariamente mau. Mas o vice-almirante mostrou também que, ao contrário do que muitos portugueses pensavam até aqui, as forças armadas fazem sentido, mesmo em tempo de paz, porque as guerras afinal podem surgir em qualquer momento e o inimigo pode ser “invisível”, como o próprio Gouveia e Melo o classificou várias vezes.

Pior na fotografia ficou o Governo de António Costa, quando tentou fazer um claro aproveitamento deste amor que os portugueses mostraram por Gouveia e Melo, tendo levado um puxão de orelhas público do Presidente da República para mostrar que para elogiar um não é necessário humilhar outro.

Gouveia e Melo sai de cena aclamado pelo povo, porque trouxe o que muitos não acreditaram ser possível, o regresso prometido à normalidade e com isso a esperança, um sentimento ambíguo mas positivo que Portugal precisa para retomar a sua vida. A lição que fica é clara. Afinal, somos capazes, basta querer. Afinal, para ser herói basta fazer o nosso trabalho exemplarmente, sem politiquices.

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