Três anos depois de revolucionar o mundo com o ChatGPT, a OpenAI encontra-se numa posição que, confesso, nunca imaginei ver, a de perseguidora. O mundo ficou perplexo quando se tornou público o memorando interno de Sam Altman, onde declara “código vermelho” e determina o cancelamento de projetos para concentrar todos os recursos na melhoria do chatbot, o que, na minha opinião, é um reconhecimento tácito de que a empresa perdeu o estatuto de imbatível. A razão parece clara, o Gemini 3 da Google não só ultrapassou o GPT 5 em avaliações técnicas, como conquistou a preferência dos utilizadores em áreas decisivas. Esta inversão de papéis, três anos depois de ter sido a Google a soar o alarme perante o ChatGPT, mostra bem a natureza hipercompetitiva e volátil do sector da IA, e levanta, a meu ver, questões mais profundas sobre a sustentabilidade do modelo de negócio da OpenAI e sobre o rumo desta corrida pela supremacia tecnológica.
Os números contam uma história preocupante. O ChatGPT mantém 800 milhões de utilizadores ativos mensais, enquanto o Gemini tem 650 milhões, mas é a tendência que importa. A Google cresceu de 450 milhões para 650 milhões em apenas três meses, uma aceleração que sugere uma ultrapassagem iminente. Mais importante ainda, a OpenAI viu-se obrigada a adiar projetos estratégicos como agentes de IA para compras e saúde, iniciativas publicitárias e o Pulse, uma ferramenta de relatórios personalizados, o que indica que a pressão interna é real.
Na minha leitura, esta retração não espelha prudência, mas fragilidade. A OpenAI opera com custos operacionais elevadíssimos, dívidas pesadas e uma dependência crítica de financiamento externo. Quando uma empresa pioneira precisa de sacrificar o futuro para proteger o presente, é legítimo perguntar se não existe um problema estrutural que ainda não foi assumido de forma aberta.
Durante demasiado tempo acreditou-se que a OpenAI tinha criado um fosso tecnológico difícil de ultrapassar, porque chegou primeiro ao mercado, com mais dados, mais utilizadores e mais feedback. A realidade aparenta demonstrar outra coisa. A Google dispõe de recursos que a OpenAI não consegue igualar, desde infraestruturas próprias a décadas de experiência em pesquisa, além de um ecossistema integrado e de um modelo de negócio já rentável. Quando Altman admite que será preciso melhorar a experiência de utilização, está a reconhecer que não basta ter modelos impressionantes, é preciso traduzi-los num produto que convença no dia a dia.
A lealdade dos utilizadores na IA generativa é baixa, porque mudar de chatbot não implica custos nem barreiras. O mercado é, a meu ver, brutalmente meritocrático. Por isso, precisamos de compreender que continuamos numa fase fundacional, apesar de alguns insistirem que já atingimos o auge tecnológico.
Penso que o caso OpenAI oferece três lições valiosas para todo o sector tecnológico. Primeira, ser pioneiro não garante vitória permanente. Segunda, crescer a qualquer custo sem caminho para a rentabilidade é receita para a vulnerabilidade. Terceira, em mercados de rápida comoditização, a integração vertical e os recursos próprios tornam-se decisivos.
Para Portugal e para a Europa, considero que há reflexões adicionais. Enquanto assistimos a esta batalha de titãs americanos, é justo colocar a seguinte questão, não deveríamos questionar-nos sobre a nossa própria dependência tecnológica? Não se trata, na minha perspetiva, de construir um ChatGPT europeu, esse navio já partiu, mas de desenvolver capacidades próprias em áreas verticais específicas, aproveitando o conhecimento sectorial e a regulação inteligente como vantagens competitivas.
Altman promete um novo modelo de raciocínio já na próxima semana, alegadamente superior ao Gemini 3, mas isto parece-me apenas mais um episódio numa corrida onde cada avanço é rapidamente igualado. A questão essencial não é quem lançará o próximo modelo mais brilhante, mas quem conseguirá construir um negócio sustentável em torno dele.
O “código vermelho” é, a meu ver, um momento ímpar de transparência involuntária, pois mostra que até os gigantes podem tremer. Na economia da IA não existem posições seguras, existe apenas a corrida constante para evitar ficar para trás, e quando até os pioneiros perdem o equilíbrio, talvez todos devamos prestar mais atenção.



