O inevitável confronto entre os EUA e a China

Trump retomou um desígnio nacional. Tornar a América novamente grande não é mais do que um apelo ao imperativo de restabelecer uma liderança global perdida, ou em vias de se perder.

Existe um consenso alargado entre as elites políticas norte-americanas, transversal aos diferentes partidos, de que é necessário conter a ascensão da China, por ser o principal opositor ao projeto hegemónico global norte-americano. Contudo, as opiniões dividem-se sobre o modo de impedir essa ascensão. Este debate não é novo nos círculos do poder norte-americano.

Com o objetivo de impedir a emergência da China, o presidente Obama alterou a prioridade da sua política externa para a Ásia (“Pivot to East Asia”). Os resultados foram pífios. A estratégia de Obama não resultou. Na altura, os dirigentes europeus ficaram à beira de um ataque de nervos, como normalmente acontece a quem nasce um irmão, quando os pais passam a dedicar mais atenção ao recém-nascido. Trump retomou aquele desígnio estratégico, como retomará o próximo ocupante da Casa Branca, seja ele quem for. É um desígnio nacional. Tornar a América novamente grande não é mais do que um apelo ao imperativo de restabelecer uma liderança global perdida, ou em vias de se perder.

A concordância entre os decisores políticos sobre a matéria prende-se apenas com o facto de ser necessário implementar uma política mais dura com a China do que a utilizada até agora. A forma de Trump o fazer parece bastante desajeitada. Os resultados não são ainda conclusivos. Os seus críticos pouco mais fizeram do que manifestar discordância. Ainda não anunciaram que estratégia adotariam se estivessem no seu lugar. Uma coisa é certa, qualquer que seja a resposta, terá inevitavelmente custos pesados para a economia dos EUA. Os americanos irão suportar um fardo pesado.

O confronto será certamente muito duro, nomeadamente no domínio tecnológico e científico, como temos vindo a assistir relativamente à liderança do 5G. A China vai ser um osso duro de roer. O deficit comercial é apenas um pretexto para o confronto. Não é aí que reside o cerne da questão. Na sua estratégia “Made in China 2025”, Pequim identifica claramente onde tem de ser feito o esforço (inteligência artificial, robótica, computação quantum, veículos sem condutor, etc.). Se a China dominar essas indústrias, o projeto norte-americano de hegemonia global vai complicar-se, e sofrer revezes.

Vão longe os tempos em que a China se limitava a copiar. Segundo o World Intellectual Property Indicators 2017, o gabinete da propriedade intelectual da RPC recebeu em 2016 mais pedidos de patentes que o valor combinado dos seus congéneres dos EUA, Japão, Coreia e União Europeia. Nesta matéria, a China tem tido um crescimento de dois dígitos desde 2010.

Os EUA encontram-se em desvantagem nalguns domínios cruciais, como seja o da energia. Enquanto os EUA investem no fracking, a China inova e lidera nas energias renováveis, dispondo da maior capacidade instalada a nível mundial, apostando agora na designada energia solar baseada no espaço. A China planeia colocar em órbita, em 2050, uma estação de energia solar. Dois paradigmas energéticos diametralmente opostos.

Muitos analistas veem a presente guerra comercial desencadeada por Trump contra a China como algo passageiro, temporário e de natureza tática. Puro engano. Trata-se antes da execução de uma estratégia concertada e de longo prazo, sem se recorrer primordialmente ao emprego da força. O recente acordo a que chegaram os presidentes Donald Trump e Xi Jinping, em Osaca, na reunião do G20, para não escalar a guerra comercial deve ser visto apenas como uma trégua.

Trump prefere usar a pressão económica, em detrimento do instrumento militar. Daí que a armadilha de Tucídides avançada por Graham Allison pareça ser pouco útil para compreender a política externa do presidente norte-americano, e nomeadamente o presente confronto com a China. Certamente que existirão fortes tensões entre a potência dominante e a emergente, mas é improvável que evoluam para a confrontação armada, apesar dos prognósticos de alguns altos dignitários norte-americanos.

Não deixam de ser preocupantes as declarações de Ben Hodges, ex-comandante das forças terrestres dos EUA na Europa, prognosticando a inevitabilidade de uma guerra entre EUA e China dentro de 15 anos; ou o estudo encomendado pelo Pentágono à RAND sobre a possibilidade de uma guerra com a China. Os belicistas não se dão por vencidos.

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