O jogo de sobreviver ao capitalismo

A atual série mais popular da Netflix, “Squid Game”, continua e aprofunda a reflexão de “Parasitas”, de Bong Joon-Ho, que recorre à sátira e humor negro para expor o fosso de desigualdades cada vez maior entre pobres e ricos.

Já ouviu falar na série Squid Game (“O Jogo da Lula”) da Netflix? Por estes dias, são poucos os que ainda não ouviram falar do novo fenómeno televisivo, de origem sul-coreana, que se tornou a série mais vista da Netflix no mundo (mais de 100 milhões de contas na plataforma). A Coreia do Sul tem ditado cada vez mais as regras no mundo do entretenimento, não só graças à enorme popularidade da K-pop (música pop) entre as gerações mais novas, mas também a uma forte indústria cinematográfica e televisiva.

Squid Game é brutal, violento, distópico, e soube congregar todos os vícios e defeitos de uma sociedade implacável em que um bando de pessoas caídas em desgraça vê o seu desespero financeiro explorado ao máximo pelos mais poderosos e da forma mais sádica possível. O que faríamos se tivéssemos a oportunidade de nos livrar de uma vida de problemas e dívidas através de uma série de jogos de infância?

De certa forma, a série continua e aprofunda a reflexão de Parasitas, de Bong Joon-Ho, que recorre à sátira e humor negro para expor o fosso de desigualdades cada vez maior entre pobres e ricos.

Squid Game pode ter-se tornado a série mais popular da Netflix, mas está longe de ser a única a abordar estes temas. Algumas das séries mais mediáticas dessa plataforma nos últimos anos, como a espanhola La Casa de Papel ou a francesa Lupin, expõem, à sua maneira, a opressão gerada por um sistema desigual e polarizado, em que os mais abastados se tornam o alvo de ladrões transformados em heróis (e até cantam o hino antifascista Bella Ciao).

Se Squid Game funcionou particularmente bem e parece ter tocado num ponto nevrálgico global, é porque, de uma forma ou de outra, não há quem não se identifique com a angústia diária que domina a existência de pessoas endividadas. Não há alívio numa existência em que o custo de vida sobe todos os dias, a inflação elimina os parcos aumentos salariais, a precariedade se torna a norma, a gentrificação expulsa os habitantes dos centros da cidade para as periferias cada vez mais longínquas.

Temos sido todos arrastados para o nosso próprio Squid Game. Embora menos violento, não deixa de ser dramático e resulta num enorme cansaço. Um cansaço que se reflete inevitavelmente na política. As pessoas abstêm-se. As pessoas votam em alternativas mediáticas que estão longe de refletir qualquer vontade realista de mudança. As pessoas votam em protesto, castigando aqueles que não souberam oferecer soluções para os seus problemas quotidianos. As pessoas votam, por vezes, não sabendo no que estão a votar, mas a culpa não é dos que votam. O sistema tem vindo a ser moldado de forma a manter tudo na mesma, mesmo enquanto nos ilude com promessas de mudança.

É um ciclo que se perpetua e do qual não parece haver escapatória, mas há esperança. Por mais perturbantes e cruéis que sejam os jogos que expõem a prisão alegórica em que estamos encerrados, há esperança para além do capitalismo. Esta mensagem está presente em todas essas séries de entretenimento, alertando a nossa consciência e inspirando-nos a agir contra as forças incomensuráveis do mercado que governam as nossas vidas.

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