O julgamento de Sócrates

Pretender a aplicação da Justiça não pode ser visto como uma emanação de ‘populismo’ mas como uma exigência de cidadania e uma preocupação dos verdadeiros democratas.

1. O processo judicial que envolve José Sócrates é o maior escândalo da política portuguesa, mas está longe de ser uma das habituais originalidades lusitanas.

Lula da Silva, no Brasil; Nicolas Sarkozy, em França; Benjamin Netanyahu, em Israel; Pedro Pablo Kuczynski, no Peru; Cristina Kirchner, na Argentina; ‘Tony Saca’, em El Salvador; Otto Perez Molina, na Guatemala; Jacob Zuma na África do Sul; Park Geun-hye na Coreia do Sul ou ainda Silvio Berlusconi no passado, em Itália, até Juan Carlos, aqui ao lado, em Espanha, entre muitos outros, demasiados, formam parte de uma terrível galeria de governantes que, em vários pontos do mundo, têm em comum a suspeita, ou na maioria dos casos já a prova, do aproveitamento de posições políticas para benefícios pessoais.

Esta realidade não nasceu agora, de repente. Faz parte do comportamento do Poder durante toda a História da Humanidade. Aquilo que mudou, embora não tão fortemente como seria o ideal, foi a capacidade da Justiça, das diversas Justiças, de enfrentar o problema – que, hoje, inevitavelmente, assume uma dimensão global e, em muitos casos, até parece ter pontos de contacto entre alguns protagonistas.

2. Os crimes cometidos na esfera pública precisam de um combate feroz. A corrupção, a fraude fiscal, o branqueamento de capitais, entre outros, minam a Democracia. Levantam dúvidas gerais sobre os servidores de um Estado, que assim aparecem, todos, como oportunistas e marginais. Daí à generalização, injusta, vai um pequeno salto.

Pretender a aplicação da Justiça, e de forma cada vez mais célere, não pode ser visto como uma emanação de ‘populismo’ mas como uma exigência de cidadania e uma preocupação dos verdadeiros democratas. Para Estados sem mácula, livres de ‘populistas’ e nos quais a Justiça brilha, já bastam aqueles que, governados com mão de ferro por famílias e títeres diversos, em regimes supostamente aparentados com democracias, pretendem constituir verdadeiros oásis na política mundial, nos quais até opositores aparecem assassinados. Dispenso-me de dar exemplos.

3. A ‘Operação Marquês’ não é só sobre Sócrates ou a política. Também é sobre a promiscuidade de uma época. Sobre a teia entre quem decide e coloca, quem permite e ganha. Sobre o toma-lá-dá-cá que entrelaça o Poder com o dinheiro. Esse Portugal existiu, existe, e está ainda diante de quem não queira ser cego ou simplesmente pateta. Siglas há muitas: BPN, BES, PT, BPP…

4. É importante condenar gente que comete crimes? Claro que é! E é suficiente? Não, não é. O combate à corrupção precisa de políticas e de convicções, mas sem esse primeiro momento de dar rosto ao problema não se consegue gerar aquilo de que verdadeiramente uma comunidade precisa para se manter saudável: opinião pública forte, sociedade civil mobilizada e com massa crítica, concorrência económica digna desse nome, jornalismo de qualidade, escrutínio de gente capaz de lidar com a responsabilidade de governar, seja uma câmara, seja o país.

Não sei, julgo que ninguém sabe, se José Sócrates cometeu todos aqueles 31 crimes e recebeu os tais 34 milhões de euros ou se aquelas 28 pessoas e sociedades cometeram todos os 188 crimes detetados pelo Ministério Público. Aguardo pelo julgamento e espero que seja lá, no local próprio, à vista de todos, que possamos perceber aquilo que está em causa sem amputações intermédias que nos fariam inevitavelmente comparar juízes e desconfiar. Para isso, já chega.

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