O ‘lobo fascista’ e a imigração

Os países, tal como os conhecemos, não são meras fronteiras desenhada num mapa. Nunca foram. Têm pessoas lá dentro (…) Na Europa, e nos EUA, vamos ter de ouvir os cidadãos e respeitar a sua vontade, até de limitar quem cá entra para residir

Rui Tavares, no “Público”, assinala que “o regresso do fascismo já se deu”. Em defesa da sua tese, aponta três exemplos: a separação das crianças dos pais na fronteira do México com os EUA (decisão felizmente já emendada), a expulsão dos ciganos estrangeiros em Itália e o discurso anti-imigração do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán.

Começo por dizer que Rui Tavares é uma pessoa que intelectualmente respeito. Neste caso, assinalo a minha discordância no espaço público apenas porque o tema é sério e os exemplos existem. A conclusão, a meu ver, é que está mal tirada, fruto de um misto de convicção ideológica e alarmismo sentimental.

Convém reconhecer que os países, tal como os conhecemos, não são meras fronteiras desenhadas num mapa. Nunca foram. Têm pessoas lá dentro. Estas pessoas relacionam-se entre si e estabelecem afetos determinados por uma matriz social, cultural e religiosa. É nesse equilíbrio que se habituaram a viver. E é contra as rupturas nesse equilíbrio, que mexem no seu espaço de conforto e em alguns casos na sua segurança, que estão a reagir em alguns pontos do mundo.

Comecemos pela generosa Europa – porto de abrigo da maior parte dos deserdados da globalização.

Não por acaso, os exemplos citados por Rui Tavares são de países no olho do furacão das migrações, oriundas de países pobres, inseguros ou em guerra. Na Hungria, porta de entrada de migrações terrestres, há uma ‘terrível conspiração’ democrática que elege Viktor Orbán há três eleições consecutivas. Na última, que teve uma afluência às urnas de 68,1% dos cidadãos eleitores (quem nos dera!), o primeiro-ministro elegeu 134 deputados em 199. Um outro partido, esse sim de extrema-direita, o Jobbik, ainda teve outros 26 lugares. Ninguém tem dúvidas que esta confiança, tão democrática que até o atual governo português a saudou, se estriba no respaldo dos cidadãos às políticas anti-imigração em que Orbán faz frente a Bruxelas.

Em Itália as convulsões de sempre são igualmente catalisadas pela imigração, aqui proveniente do caos no Mediterrâneo, e falta de segurança associada. Na América de Trump, personagem de que não gosto, idem. O tão famoso muro, começado a construir pelo democrata Bill Clinton para tentar parar a imigração ilegal, a criminalidade e o tráfico de drogas a partir de um Estado semi-falido, como o mexicano, é coisa de 1994. Trump apenas prometeu a sua conclusão, nada mais, e teve aí grande apoio dos cidadãos.

Atentemos nisto: até 2050, a população muçulmana na Europa deverá passar de 43.5 milhões para 70.9 milhões. Aqui ao lado, em Espanha, nessa altura 7,5% da população será muçulmana.

Há quem sustente, como o filósofo e escritor Lou Marinoff, que a Europa tem de “enfrentar a realidade” sobre a crise migratória aceitando que esta não é uma questão humanitária, mas sim “uma invasão” em “câmara lenta”. Chama-lhe mesmo uma invasão programada.

Perante isto, Rui Tavares bem pode gritar com o seu fantasma, o ‘lobo fascista’. Muita gente na Europa, insuspeita de apoiar ideias totalitárias, pode ainda apontar os casos de França, da Bélgica, até da Suécia e os motivos do Brexit, antes de dizer o seguinte: temos aqui um problema grave, com vertentes diferenciadas. Ele não se resolve nem com histeria nem com crónicas apaixonadas. Na Europa, e nos EUA, vamos ter de ouvir os cidadãos e respeitar a sua vontade, até de limitar quem cá entra para residir, como faz a Rússia, por exemplo. Isso precisa de discussão pública séria, substantiva. Não tem a ver com lobos. Tem mais a ver com proteger as ovelhas.

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