O mais certo é gerir na incerteza

É legítimo usar a intuição para se perceber como evoluirá a “cadeia de contágio”: o que provocará uma paralisia de circulação de pessoas e bens a nível global?

Na altura que escrevo estas linhas, a crise provocada pela doença Covid-19 acaba de ser declarada pandemia por parte da Organização Mundial de Saúde. Não obstante todos os riscos que enfrentamos, é a primeira vez na história que estamos perante uma pandemia monitorizada (quase) em tempo real. A sociedade organiza-se, com base na informação que possui, para a prevenção na saúde e para minimizar riscos e impactos nas vidas das pessoas. Nestes momentos de exceção, é fundamental que os meios, ainda que utilizados com a maior racionalidade possível, não sejam condicionados pela mera aritmética.

Para os que ainda tinham dúvidas sobre os novos desafios da gestão na incerteza, eis que, ao virar da esquina, temos uma situação real que emerge de fora da esfera económica. Ainda não sabemos ao certo qual o impacto de um cenário desta natureza na atividade dos agentes económicos. No entanto, é legítimo usar a intuição para se perceber como evoluirá a “cadeia de contágio”: o que provocará uma paralisia de circulação de pessoas e bens a nível global?

Nesta altura, é ainda difícil perceber-se o que se passará nas cadeias de valor de produção de bens. Mas, a redução significativa de circulação de pessoas já está a produzir severos impactos nos transportes aéreos e no turismo.

Portugal, pequena economia aberta ao exterior, com um peso importante do turismo na formação da riqueza, apresenta uma exposição particularmente vulnerável a esta crise global. Este pode ser o epicentro que ditará pressão sobre as contas públicas. O país registou, em 2018, um peso das receitas do turismo de 8,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Mas, se englobarmos nestas contas as atividades conexas às receitas do turismo, incluindo o alojamento, restauração e bebidas, transportes, viagens, serviços culturais, recreação e lazer, recorrendo à Conta Satélite do Turismo do Instituto Nacional de Estatística, essa fatia representava 13,7% do PIB no ano de 2017.

Realço o peso do consumo externo: 67,5%! Acresce que os serviços associados ao turismo representam aproximadamente 18,6% das exportações (51,5% no segmento de exportações de serviços). No total, são 26,7 mil milhões de euros, uma das receitas mais elevadas do total dos países da OCDE em percentagem do PIB. No emprego, o turismo representa mais de 10% da força de trabalho portuguesa.

De um mês para o outro, os empresários do setor deparam-se com uma certeza: a incerteza na tesouraria. Com custos fixos respeitantes a uma capacidade instalada dimensionada para uma atividade que está a ver cancelar potenciais receitas todos os dias. Com salários para pagar, postos de trabalho para defender, mas com receitas significativamente afetadas.

E, agora, faça-se o raciocínio deste fenómeno real, que está a acontecer hoje, multiplicando os seus efeitos pelas diversas cadeias de valor que daqui derivam. Menor procura, menos receita privada. Menor número de transações, menos receita pública decorrente de impostos indiretos.

Com as devidas distâncias, físicas e de análise, no território de Macau, foram registados dez casos de Covid-19. Todos estão recuperados e há mais de um mês que não são registados novos casos. Paulatinamente, estão a ser reabertos os estabelecimentos turísticos da região, mantendo-se um conjunto de procedimentos de segurança sanitária à entrada do território.

Não arrisco fazer contas, mas arrisco dizer que, para além da prioridade que é a saúde de todos, os custos de contenção, financeiros e sociais, podem evitar severos impactos. Por isso, gerir imprevistos é tomar decisões. E essas moldarão o nosso futuro.

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