O Mecanismo

Antes viver num país onde a Justiça e os supervisores cometem erros, por excesso de zelo, do que num país onde a corrupção é tolerada e justificada com falinhas mansas e argumentos piedosos.

Mário Garcês de Brito é uma das mais interessantes personagens da brilhante série brasileira “O Mecanismo” (Netflix). Um velho advogado muito influente, com ar de avôzinho e saúde débil, mas extremamente astuto e talentoso na arte negra de manobrar procuradores e juízes, a ponto de amigos e inimigos lhe chamarem “Mago”. É a esta personagem inspirada no antigo ministro da Justiça do Brasil, Márcio Thomaz Bastos, que o ex-presidente João Higino (o Lula da série) recorre quando começa a ter problemas com a Operação Lava Jato.

Durante os seus esforços para acabar com a investigação, Garcês de Brito diz a certa altura que os procuradores que investigavam a Lava Jato não compreendiam o Brasil. “São bem intencionados, mas muito jovens e não percebem como funciona esse país”, dizia o Mago quando tentava convencer o Procurador Geral da República a pôr fim à investigação. Afinal, argumentava, estavam em causa milhões de empregos e a estabilidade económica e política do Brasil: as 13 grandes empresas envolvidas no caso teriam de cancelar os seus investimentos, a economia entraria em recessão e o próprio sistema político poderia não resistir ao escândalo, abrindo caminho ao populismo e até a um eventual golpe militar. Só que, tal como a personagem real que lhe serviu de inspiração, o escorregadio Garcês morre antes de conseguir convencer a Procuradoria a suspender a Lava Jato, que rapidamente atinge proporções antes inimagináveis e põe em causa João Higino e a sua sucessora, a presidente Janete Ruscov (inspirada, claro está, em Dilma Rousseff).

Na vida real, no Brasil como em Portugal, não faltam Garcês de Brito. Há sempre alguém disposto a justificar a corrupção, o tráfico de influências e a distorção do mercado por cartéis e grupos ligados à política.

Invariavelmente, um alegado bem maior é invocado como justificação para que o cidadão comum e o sistema de Justiça fechem os olhos à podridão. Esse bem maior pode ser  o alegado interesse nacional, a clubite partidária (que cega até gente inteligente e honesta, com o argumento de que os “outros” são igualmente corruptos), ou, simplesmente, o elevado custo económico de parar a música e acabar com as aldrabices.

Mas quanto maior é a tolerância de um povo aos crimes de colarinho branco, maior será o prejuízo causado à sociedade. Tanto o Brasil como Portugal poderiam ser muito mais ricos e desenvolvidos se existisse menos corrupção. Não saíremos da cepa torta enquanto não compreendermos que o corrupto não é alguém que merece respeito ou admiração, mas antes uma pessoa que causa sofrimento real aos seus concidadãos. É alguém que nos vai ao bolso de mil e uma formas, que faz com que paguemos mais impostos e, em troca, tenhamos serviços públicos de menor qualidade. É alguém que nos obriga a pagar buracos de bancos em vez de financiar hospitais e escolas. É alguém que faz com que nos cobrem mais por serviços essenciais.

A corrupção no Estado e nas empresas perverte o funcionamento do mercado, destrói a livre concorrência, afasta o talento e mina a confiança. Manipula até o jornalismo, em detrimento da verdade. É um cancro que corrói um país.

Antes viver num país onde a Justiça e os supervisores cometem erros, por excesso de zelo, do que num país onde a corrupção é tolerada e justificada com falinhas mansas e argumentos piedosos.

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