O mercado de trabalho em Portugal numa nova década digital

O mundo em que vivemos, movido pela tecnologia, é repleto de promessas, mas também de desafios. A alteração do mercado de trabalho poderá implicar ajustes significativos, nomeadamente na requalificação dos trabalhadores. Em que situação se encontra Portugal?

Entre 2000 e 2018, o setor de atividades científicas e tecnológicas aumentou o seu peso no mercado de trabalho em 64,78%, assim como o setor de informação e comunicação, que disparou em 1,8%.  Um estudo feito pela CIP e pela McKinsey sobre o futuro do trabalho refere que até 2030 serão criados entre 600 mil e 1,1 milhões de novos empregos.

Segundo o relatório “The State of European Tech”, Portugal foi o segundo país onde o emprego tecnológico mais cresceu em 2017. A abertura de hubs tecnológicos por empresas alemãs e a Web Summit potenciaram este crescimento.

No entanto, Portugal tem neste momento um problema de “talento tecnológico”: as empresas têm mais vagas do que pessoas formadas na área de tecnologia disponíveis. Tal justifica-se pela digitalização de todos os setores de negócio, mas o principal motivo está relacionado com a chegada de um volume importante de investimento estrangeiro ao país, que está a pressionar o mercado de trabalho tecnológico. Estatísticas de 2018 mostravam que, até 2020, seriam precisos mais de 900 mil trabalhadores qualificados na área tecnológica para fazer frente às necessidades de mercado.

A falta de talento tecnológico e as pressões externas levaram à contratação de trabalhadores qualificados na área de TI de fora do país, nomeadamente através de vistos especiais como o Tech Visa. Não obstante, a tecnologia poderá constituir um desafio para as sociedades mais envelhecidas, como a portuguesa, que serão mais afetadas.

Tradicionalmente, os setores que empregavam mais trabalhadores eram os da agricultura e construção. Porém, nos últimos 19 anos, estes setores perderam importância significativa no peso do mercado de trabalho, descendo em 32,5% e 46%, respetivamente.

Metade do tempo de trabalho em Portugal poderia ser feito por tecnologias de automatização que já existem, diz o estudo feito pela McKinsey em conjunto com a CIP e a Nova SBE. De acordo com este estudo, 1,8 milhões de trabalhadores irão necessitar de melhorar as suas competências ou mudar de emprego nos próximos 11 anos. Mais ainda, estima-se que a adoção da automatização poderá levar à perda de 1,1 milhões de postos de trabalho até 2030, com maior incidência nos setores da indústria transformadora e do comércio. Quais são as profissões em risco de extinção e aquelas que prevalecem?

As profissões mais suscetíveis de serem automatizadas são aquelas que envolvem atividades físicas em ambientes previsíveis, como operar máquinas e preparar refeições rápidas (fast food). A automatização terá um efeito menor no caso de empregos que envolvem gestão de pessoas, aplicação de expertise e interações sociais, onde as máquinas ainda não conseguem reproduzir a performance humana. O impacto da automatização, se nada for feito, poderá acentuar ainda mais as desigualdades na sociedade portuguesa: trará benefícios para os mais qualificados e para os detentores da tecnologia e prejuízo para os menos qualificados e com menor acesso à formação necessária.

Em que sentido devem os trabalhadores preparar-se para enfrentar a nova era digital? Muitos empregadores realçam a necessidade de adquirir competências de programação, uma vez que estas terão uma importância transversal a qualquer área.

A área das tecnologias de informação lidera os pedidos de recrutamento num Portugal cada vez mais tecnológico. No topo das prioridades estarão os engenheiros e especialistas na área de data science e os especialistas em software, tal como SQL, R e Python. As áreas com maior criação de emprego serão as áreas de computadores, Matemática, Arquitetura e Engenharia.

Inteligência humana na análise, quantificação e suporte à tomada de decisão do negócio, flexibilidade e agilidade, rapidez e eficiência serão as hard skills mais procuradas. Simultaneamente, poderá aumentar a necessidade das soft skills e saber enquadrá-las com as competências digitais. Mais ainda, estudos (Guia do Mercado Laboral 2020) indicam que, num futuro próximo, os empregadores vão valorizar cada vez mais a apetência para trabalhar em equipa. Neste contexto, a inteligência emocional, incluída na categoria de soft skills, será uma qualidade com muita procura.

Para além da importância da requalificação, existirá também uma necessidade de aumentar o nível médio de qualificação da força de trabalho em Portugal até 2030. Por outro lado, o aumento das remunerações é um tópico em discussão, como o incentivo ao aumento da qualificação dos portugueses.

Apesar dos numerosos desafios que surgem no mercado de trabalho e com que se deparam os trabalhadores portugueses, o futuro certamente trará oportunidades excecionais a quem estiver apto a ultrapassá-lo. A sociedade terá de se ajustar a novas realidades e preparar-se para as novas profissões que nos esperam na nova década digital.

O artigo exposto resulta da parceria entre o Jornal Económico e o Nova Economics Club, o grupo de estudantes de Economia da Nova School of Business and Economics.

 

Referências:

Brinca, Pedro; Duarte, João Bernardo; Gouveia-de-Oliveira, João ; Ferreira, Ana Melissa. O Futuro do Trabalho em Portugal: O Imperativo da Requalificação, http://cip.org.pt/wp-content/uploads/2019/10/Relatório-FoW_NSBE-CIP.pdf

Casinhas, Henrique. “Robôs” eliminam 1,1 milhões de empregos em Portugal até 2030. Observador. 17 Jan 2019, https://observador.pt/2019/01/17/automatizacao-obrigara-18-milhoes-de-portugueses-a-ter-formacao-ou-a-trocar-de-emprego/

Gouveia, Ana Fontoura. O novo carvão. Público. 13 Maio 2019, https://www.publico.pt/2019/05/13/tecnologia/analise/novo-carvao-1872273

https://www.montepio.org/ei/pessoal/emprego-e-formacao/profissoes-mais-procuradas-futuro/

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