O meu manifesto

Um manifesto é para promover uma causa ou para promover o próprio? Há regras para um bom manifesto?

Um grupo de cidadãos e organizações fez um manifesto em prol de uma recuperação económica justa e sustentável em Portugal. Ou seja, confirma o efeito nefasto do confinamento sobre a psique humana: só prova que ou o coronavírus passa e acaba o confinamento, ou toda a gente dá em doida neste país.

O que querem estas almas dizer? Acham que o Governo vai fazer políticas injustas e insustentáveis? Querem forçar a mão ao Governo? Mesmo a resposta de Talleyrand ao Príncipe de Hardenberg, “si cela va sans dire, cela ira encore mieux en le disant”, é descabida. Ou será que acham que o Dr. Rui Rio não é capaz de dar conta do recado e têm que ser eles a fazer oposição?

Um manifesto como este não é feito certamente pelos seus efeitos práticos – é tão eficaz como o Manifesto Contra a Extinção dos Dinossauros. Mas um manifesto pode ter outros fins, menos evidentes. Por outras palavras, um manifesto é para promover uma causa ou para promover o próprio? Há regras para um bom manifesto?

Há. Primeira, um manifesto deve ter pontos numerados, princípio generalizado desde a Declaração dos Direitos do Homem, no século XVIII. Segunda, um manifesto deve ter a capacidade de percutir, como o Manifesto do Partido Comunista, que pôs a Europa toda à pancada e originou dezenas de revoluções. Terceira, deve ser provocador, como o Manifesto SCUM, que sustenta que os homens deram cabo do mundo e que é às mulheres que cabe corrigi-lo, particularmente “derrubando o governo, eliminando o sistema monetário, impondo a automação completa e destruindo o sexo masculino”, se bem que eu discorde frontalmente do último.

Quarta, deve ser propaganda, como o manifesto de Frank Lloyd Wright para os aprendizes, que lista as características que devem ter mas que descrevem alguém muito superior ao Príncipe Encantado. Quinta, deve chegar ao destinatário de forma original, mas com impacto, como o “My Cultural Revolution” de Dali, embrulhado num tijolo nas barricadas de Paris (o que também o classificaria como algo capaz de “percutir”). Sexta, de preferência deve ser curto a longo – teve muito mais impacto no homem comum a Declaração de Independência americana que as 700 páginas do “Mein Kampf” ou um discurso de oito horas do Fidel.

Sétima, um manifesto deve comunicar e absorver o destinatário – o Neoismo tem como manifesto um cartaz com todo o texto riscado e um cabeçalho que diz: “Manifesto Neoista: o Neoismo não tem manifesto”; quando Louis Aragon renegou o surrealismo, Louis Scutenaire escreveu-lhe o epitáfio “ci-gît Aragon Louis, on est pas sûr que ce soit lui”. Oitava, deve ser original e propor o impensável, como o manifesto do Dr. Ferro Rodrigues, que em pleno confinamento abre a Assembleia da República para celebrar o 25 de Abril. E se tomarmos outro manifesto, o “25 de Abril sempre!”, devia abri-la todos os dias.

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