O meu, o teu, ou o 25 de Abril de todos?

A violência da discussão em torno da celebração do 25 de Abril na Assembleia da República tapou os ouvidos para aquilo que poderia ser considerado o outro lado.

O presidente da Assembleia, Ferro Rodrigues, insiste na celebração classificando, quem dela discorda como “saudosista, antiparlamentar ou seguidor de “fake news””. Categorias em que dificilmente se podem enquadrar Vasco Lourenço e Jorge Sampaio, ambos disseram que não estarão presentes pelo risco inerente à sua saúde, ou o filho do fundador do PS, João Soares que escreveu no Facebook, “com todo o respeito por quem tem opinião contrária, acho um disparate persistir na ideia da sessão comemorativa do 25 de Abril na AR no modelo tradicional”,  e não admitir que lhe “chamem facho ou que insinuem que não está com o 25 de Abril”.

O espaço público está saturado de gritos, pelo que quero propor uma conversa. Um dos sintomas do estado de excepção em que vivemos é a colonização das nossas mentes. Faça o teste há quantas horas está sem pensar na pandemia? E no impacto que a mesma teve na sua vida, da sua família e dos seus amigos? É essa a verdadeira excepcionalidade dos dias em que vivemos. E este tem de ser o ponto de partida para qualquer conversa.

Há quem tenha ficado desempregado, há milhares em lay off, há quem tenha que recorrer à boa vontade e extraordinária solidariedade de outros para ter uma refeição quente, há quem não se possa ter despedido de amigos ou familiares, há milhares de policias, bombeiros e outros agentes da proteção civil numa batalha diária, há médicos, enfermeiros e pessoal de saúde a fazer um esforço sobre-humano  e há quem não tenha podido festejar a Páscoa, a data mais sagrada no calendário cristão.

Portugal sendo um Estado laico acolhe milhões de cidadãos católicos que se viram pela primeira vez privados de celebrar, no modelo tradicional, este dia.

A imagem do Papa numa Praça de São Pedro deserta tocou muitos, católicos e não católicos pela força e pelo sinal. Perante uma Praça vazia Francisco expressou o direito fundamental à esperança.  “Somos todos frágeis, todos iguais, todos preciosos”, palavras certeiras do Papa.

É de sinais e de empatia que falamos. Não estamos todos no mesmo barco. Não estamos mesmo. Muitos só têm barquinhos de papel.

Voltemos a Abril. Abril não é algo distante, nem tem dono, mas sim é aquilo nos fez e faz democratas. Liberdade é a palavra mediadora e unificadora. A única forma de lutar pelo comum, reamarrando os laços da comunidade numa altura tão desafiante para todos nós enquanto sociedade, é criando o comum em comum.

A democracia não está suspensa, assim como quem por razões de bom senso, considera desadequada, não a celebração, mas o figurino da mesma é anti-democrata. Pelo que se pede, a bem dessa flor delicada que é a democracia, ao Presidente da Assembleia da República que escute o sentimento popular e não se entrincheire numa posição. Em Itália, o 25 de Abril, da da libertação, será festejado on-line, com dignidade e num modelo que chegue a várias gerações. Na Alemanha os 75 anos da libertação dos campos de concentração de Bergen-Belsen, Sachsenhausen e Ravensbrueck – todos os anos o dever de memoria de recordar o terror nazi é assinalado presencialmente – foram assinalados on-line. Porque não fazer uma cerimónia diferente? Que chegue a todos e nos una a todos? Que retire o tapete a extremismos?

Porque não cantarmos todos às janelas e varandas de casa, do local de trabalho, nos hospitais, a Grândola e o hino nacional às 15 horas de 25 de Abril de 2020? Porque não fazer não o meu, não o teu, mas o nosso 25 de Abril ? Empunhando cravos de esperança.

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