A data que constará na certidão de óbito da morte do multilateralismo será a deste ano de 2025. Não foi uma coisa repentina, sem aviso, mas uma degradação que se arrastou. O multilateralismo morreu de doença prolongada.

Este ano foi mais duro, reconheça-se, com a recuperação da pandemia de covid-19 ensombrada pelo ressurgimento inflacionista, com uma guerra sem fim na Europa e a carnificina implacável em Gaza a evidenciarem a inoperância do sistema. Claro que o regresso de Donald Trump à Casa Branca, a sua postura de bully, a guerra comercial que desencadeou e as posições que adotou face às organizações internacionais aceleraram o declínio, mas já era um caminho que estava a ser feito.

Quando era necessária, a Organização Mundial do Comércio perdeu-se em parte incerta. A sua congénere da Saúde sucumbe ao apertar dos cordões da bolsa norte-americana e a UNESCO segue-lhe os passos. Uma derrocada.

O Tribunal Penal Internacional mostra-se limitado na sua ação quando três dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas não o reconhecem – Estados Unidos, China e Rússia –, nem a Índia ou Israel, já agora. Mesmo com 124 países a ratificarem o Tratado de Roma, é uma ideia europeia que esmorece, como a organização primeira do multilateralismo, as Nações Unidas, entalada entre uma Assembleia Geral com voz, mas sem capacidade de ação, e um Conselho de Segurança inoperante, arcaico. O último prego poderá ser a corrida ao reconhecimento da Palestina, em setembro, se ainda houver o que reconhecer.

No espaço vazio de poder e enquanto se desmoronam estas instituições, procuram afirmar-se outras, como o BRICS, um acrónimo já insuficiente para os 11 países que o integram. Também a Organização de Xangai para a Cooperação, o Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas, a Associação das Nações do Sudoeste Asiático ou a União Africana. Ao mundo bipolar que sucedeu à II Guerra Mundial sucede um mundo de múltiplas ordens, como diz José Filipe Pinto.

Morta esta multilateralidade, que viva noutras dimensões.