O Mundial ibérico

Este evento futebolístico, ao qual Portugal e Espanha agora se candidatam formalmente, é importante e seria bem-vindo.

1. Antes que (re)comecem as ladainhas críticas dos pseudo-intelectuais que vivem entre livros com esparsas e delirantes incursões no mundo real, eu digo: faz todo o sentido a candidatura ibérica ao Mundial de futebol de 2030, que será hoje (sexta, 4) apresentada em Madrid, ao mais alto nível, a reboque do jogo particular entre os dois países, de preparação para o Europeu 2020.

Entre outras dimensões – como o lucro direto ou a modernização das infraestruturas, não só desportivas –, organizar um Mundial de futebol é uma excelente promoção para o Turismo, importante atividade nos dois países. O sector representa 328,5 mil empregos e 6,7% na economia portuguesa. Em Espanha significa 11,2% no PIB e 13% do emprego.

Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e Fernando Gomes (FPF), por Portugal, e Felipe VI, Pedro Sánchez e Luís Rubiales (RFEF), por Espanha, têm o meu apreço por avançarem com o anúncio feito há dois anos (junho de 2019) – e que, numa primeira fase, proposta pelo presidente do governo espanhol (novembro de 2018), pretendia incluir igualmente Marrocos numa potencial candidatura mediterrânica.

2. Há várias outras razões para avançar.

Em Portugal, o futebol profissional gerou 750 milhões de euros apesar da pandemia, contribuindo com 494 milhões de euros para o PIB (0,26%) na temporada 2019/20, uma redução em cerca de 55 milhões em relação à época desportiva anterior (efeito Covid-19). A estes números, validados pela Ernst & Young Portugal, devem ser somados os referentes ao futebol na sua totalidade.

Um outro recente estudo, da UEFA (Grow SROI), mostra que o retorno social do investimento do futebol em Portugal ascende a 1,67 mil milhões de euros. Grande parte deste valor diz respeito à economia: o impacto da modalidade será assim de cerca de 944 milhões de euros. Os restantes 579,4 milhões estão associados a instalações, ou seja, investimento em infraestruturas ou aluguer de campos.

Em Espanha, por cada emprego direto, o futebol gera quatro outros indiretos. No total, estima-se que a modalidade, em todas as suas variantes, dê emprego a cerca de 185.000 pessoas, sendo responsável por uma atividade económica de 15,6 mil milhões de euros (1,37% do PIB). São números auditados pela PwC.

3. Relembro estes números, concretos, para além da inquestionável dimensão do futebol na sua perspetiva imaterial e relacionada com a cultura popular, para dizer que este evento, ao qual os dois países ibéricos agora se candidatam formalmente, é importante e seria bem-vindo.

No caso português, sabe-se, até, que o esforço será proporcional, um máximo de quatro estádios, sendo certos os da Luz e do Dragão. Nada de mais e que possa parecer incómodo nesta fase económica pós-pandemia. Mesmo do lado espanhol o esforço será contido, devido às remodelações recentes dos grandes estádios, como o do Santiago Bernabéu, ainda em curso e no qual se jogaria a final, ou da construção de novos, como o Wanda Metropolitano (o do At. Madrid, onde hoje se realizará o jogo entre os dois países) ou o San Mamés (em Bilbau).

Este modelo da organização conjunta é o veículo mais inteligente na atual situação mundial. Por exemplo, desta vez a candidatura ibérica vai bater-se com uma sul-americana (Uruguai, Argentina, Paraguai e Chile) e outra europeia (Roménia, Grécia, Bulgária e Sérvia).

Provavelmente, só Marrocos avançará isolado depois de ter perdido a organização pretendida do Mundial de 2026 (que será, repare-se, nos EUA, Canadá e México).

Há muitas razões para celebrar esta iniciativa, até pelo lado do regresso à normalidade da vida, tal e qual a conhecíamos antes do inverno de 2019.

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