O mundo a caminho do hidrogénio

O cluster do hidrogénio verde, para além dos efeitos no clima, poderá constituir uma oportunidade de reindustrialização profunda e diferente da UE e dos Estados-membros.

Jeremy Rifkin, presidente da Foundation on Economic Trends, em Washington D.C., é um economista de renome mundial. Um tanto polémico nas suas ideias arrojadas e muito dado à Prospectiva – antecipação de acontecimentos de ruptura/novas tendências –, percorre o mundo, desde 1994, a comunicar com executivos das grandes empresas.

Os temas que privilegia nas suas palestras prendem-se com as novas tendências na ciência e na tecnologia, explorando cenários de mudança possíveis no enquadramento global, nas sociedades em si e nas economias.

Rifkin tem uma vasta obra de investigação publicada da qual relevo para o tema deste artigo “The Hydrogen Economy” (2002) – com tradução brasileira, “A Economia do Hidrogênio” (2006) – onde antevê substanciais alterações nas instituições políticas, na economia e na sociedade, que começam a ganhar fôlego, decorrentes da introdução do hidrogénio como “vector energético”.

Numa palavra, antecipou uma mudança de paradigma energético muito impulsionado pelo combate às alterações climáticas onde o hidrogénio seria o futuro motor.

O mundo a deslizar nesta onda parece estar a dar-lhe razão. Pelo menos desencadeou-se em vários países um debate alargado sobre o hidrogénio, acompanhado da elaboração de estratégias e de planos de concretização faseados, sendo 2030, uma das metas intermédias de referência para muitos países, entre eles Portugal, e 2050 a meta final de descarbonização do sistema energético.

A Alemanha que pretende ser o ‘país do hidrogénio’ (número um mundial) divulgou, em 10/06/2020, depois de seis meses de debate no seio do Governo, a estratégia onde o hidrogénio verde é visto como uma tecnologia estratégica de ponta porque, diz: “só o hidrogénio verde, produzido a partir de energia renovável, é perene”.

O Japão também acelera no sentido de reduzir o custo de produção do hidrogénio em mais de 70%, tornando-o assim competitivo com o gás natural e obtendo duas vantagens se atingir essa meta, competitividade e perenidade, enquanto o gás natural é uma produção a prazo.

Tudo em movimento no sentido do hidrogénio, dos maiores países aos de menor dimensão.

[Referi-me antes ao hidrogénio como “vector energético” porque, na realidade, não é “uma fonte de energia” primária. A energia contida no hidrogénio pode ser recuperada de duas formas, ou através da queima ou da pilha a combustível, “fuel cell”].

Mas afinal de que hidrogénio estamos a falar?

O hidrogénio é o elemento químico que mais existe na natureza. E pode ser obtido por electrólise da água que separa as moléculas do oxigénio (O2) das do hidrogénio (H2) por efeito da passagem de uma corrente eléctrica.

Até agora, este processo electrolítico tem sido pouco usado na produção do hidrogénio para fins industriais, na medida em que é mais barato obtê-lo através dos combustíveis fósseis, mas em contrapartida emite dióxido de carbono (CO2), também conhecido por anidrido carbónico ou gás carbónico, muito poluente do meio ambiente.

Estamos então a falar de “uma revolução”, o hidrogénio verde, pois a separação das moléculas processa-se através de energias alternativas ou renováveis, dando origem a um carburante neutro em carbono que permite inflectir as alterações climáticas na medida em que contribui decisivamente para a descarbonização do próprio sistema electroprodutor e também pelas suas aplicações no todo da economia.

O hidrogénio verde não emite, por conseguinte, gases com efeitos de estufa (GEE).

Hoje, a grande questão do hidrogénio verde é a dos custos elevados de produção. Para se tornar inequivocamente um dos combustíveis do futuro precisa de tecnologias que façam baixar os custos de forma expressiva.

O hidrogénio verde é uma moda?

Sim, começa a ser uma moda útil e de possível transformação do sistema económico. Todos os países da União Europeia estão na corrida ao hidrogénio verde.

A Comissão Europeia com o seu “Pacto Verde”, de que francamente se espera um bom desempenho e um comando decidido da Comissão, apesar dos vastos escolhos que terá de enfrentar: os lobbies, principais causadores do aquecimento ao nível do planeta. Registo aqui que, conforme li na comunicação social, a Europa premeia estes poluidores do ambiente com 137 mil milhões de euros/ano em isenções diversas. As “guerras” vão, pois, ser fortes e complexas.

A Presidente da Comissão começa a carburar bem. Ainda não é um Jacques Delors mas, embora em tempos bem diferentes, está a afirmar-se no cargo.

Em meu entender, o cluster do hidrogénio verde, para além dos efeitos no clima, poderá constituir uma oportunidade de reindustrialização profunda e diferente da União Europeia e dos Estados-membros.

À partida, no seio da União, existem quase todos os argumentos para esta “revolução” de mudança de paradigma energético. Há cientistas à altura para apoio ao desenvolvimento das tecnologias de ponta ao longo do cluster onde a Europa apresente fragilidades. Há qualificação diferenciada e elevada de recursos humanos.

O desenvolvimento deste cluster vai potenciar empregos bem qualificados (engenheiros de várias especialidades e técnicos de planificação de elevado gabarito) e com alguma antevisão é possível às Universidades antecipar cursos e formação específica que preencham estas necessidades.

E afinal faltam ou não argumentos de sucesso?

Faltam e são estruturantes na projecção da União Europeia (UE) para o topo.

  • Uma UE com uma estratégia de cluster, assumida pelos países membros nos seus vectores estruturais;
  • Uma UE com um vasto entendimento na base de um programa global amadurecido;

E, finalmente, a já célebre questão do financiamento, onde a União é antes uma grande desunião. É de analisar o financiamento para este cluster, relacionado com a baixa sucessiva de isenções aos lobbies poluidores (petróleo, gás e carvão).

E Portugal?

Portugal tem uma estratégia que esteve em consulta pública. Essa estratégia identifica vectores interessantes. Uma centralidade em Sines, várias actividades onde investir e a despertar interesse em empresas de sectores variados.

Para além da cooperação com a Holanda, no meu entender, é fundamental uma colaboração muito bem alicerçada com a Alemanha que, no seu plano, tem definidas as condições de investimento no exterior em domínios onde reconhece não ter condições de competição. Aliás, assinou, neste contexto, contrato com Marrocos para a energia solar. Será importante identificar projectos para atrair capital alemão de interesse estruturante para os dois países. Algum trabalho anda a ser desenvolvido neste domínio.

Quanto à estratégia nacional impõe-se delinear alguns caminhos:

  • Aprofundamento e caracterização detalhada dos segmentos do cluster, necessariamente integrado no conjunto restrito dos clusters base do programa de transformação da economia portuguesa com esta ou outra designação;
  • Identificação detalhada das áreas de intersecção com outros clusters;
  • Articulação com a estratégia global para a Europa e com os países membros;
  • Combate à subsidiodependência dos projectos, tão típica no país. Isto significa um rigor técnico e económico na selecção dos projectos a financiar no seio do cluster;
  • Monitorização dos projectos financiados, o que exige das entidades públicas de financiamento a criação de uma estrutura altamente qualificada certamente mediante recurso a organizações de peritos nacionais e internacionais.

Pensamos que cada cluster integrador do Programa de Transformação da Economia Portuguesa deve ser dotado de plano de investimentos indicativo, gerido por uma estrutura de missão.

Uma nota final. Portugal, tal como a União Europeia, também premeia por ano os grandes poluidores através de isenções que somam 867,5 milhões de euros. Um problema a merecer redobrada atenção.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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