O mundo assíncrono

Se o regresso do Keynesianismo nos Estados Unidos irá sobreaquecer a economia e fará subir a inflação é uma questão, como se fará o ‘unwind’ do ‘quantitative easing’ outra.

Estamos a entrar num momento assíncrono da economia mundial, uma novidade.

Nos EUA, com a Covid a ficar aparentemente para trás, foram criados 916 mil empregos em março, muito acima do esperado, e o nível de confiança dos consumidores está ao mais alto de meses e em subida. No conjunto do ano podem ser criados seis milhões de empregos, o regresso ao pré-pandemia. A taxa de desemprego é 6,5%, apenas quatro milhões de desempregados acima de fevereiro de 2020, quando era de 3,5%.

A recuperação é notável, espevitada pelo plano de relançamento de Biden e pelo ritmo de vacinação, três milhões de americanos por dia. Os sinais convergem no sentido do movimento sustentado: reabertura da hotelaria (criação de cerca de 180 mil empregos num mês), queda do desemprego parcial (de 18 milhões de pessoas para dois milhões num ano), acelerar das compras de bens duradouros.

Vai-se agora testar a Teoria Económica com o maior programa de estímulos já lançado: depois dos 1,9 milhões de milhões de dólares de apoios às famílias, seguem-se dois milhões de milhões em oito anos em infraestruturas, inovação, capital humano e apoios domiciliários. Se este regresso do Keynesianismo irá sobreaquecer a economia e fará subir a inflação é uma questão, como se fará o unwind do quantitative easing outra.

Também no Reino Unido a situação económica melhora, levada pelo sucesso da vacinação.

Enquanto Boris Johnson sonha com a ligação à Irlanda por ponte ou túnel – voltámos a Macassey, em 1868, e à “travessia celta” de Dunlop, de 2018 – critica-se o governo por não acelerar o processo de normalização e o Parlamento por manter mais seis meses as leis de emergência: a revolta estendeu-se ao próprio campo conservador, com Charles Walker a prometer passear em Londres com um litro de leite na mão, em protesto contra o preço do leite, depois decide “se por ser alto de mais ou baixo de mais”.

Em contrapartida, na França adivinham-se tempos difíceis com mais um mês de confinamento absoluto: perda de um ponto de crescimento e défice de 9% do PIB, na Alemanha, a meses de eleições gerais e em plena “Primavera Verde”, com os Verdes a três pontos da CDU/CSU nas sondagens, o regresso da Covid cortou a previsão de crescimento em meio ponto e Merkel criticou Laschet, o líder do seu partido, por ser brando demais nas medidas de contenção.

Só a sexta internacional, a da alta finança, apátrida por definição e sem fronteiras por vocação, segue em uníssono, unida e próspera em todos os países. Está para o mundo económico como a esquerda brâmane de Piketty, a dos diplomados, para os outros. Com efeitos, as bolsas – americana, alemã, holandesa, francesa – registam recordes históricos e o céu não parece ser o limite. Se é bolha ou não, está para se ver.

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