O muro

A ninguém, na direita séria, lembraria tentar minimizar os crimes de Hitler e do fascismo; mas à extrema-esquerda é permitido abusar da inteligência coletiva relativizando os crimes do comunismo, de Estaline e outros.

1. O muro de Berlim caiu há 31 anos (9 de novembro de 1989) mas o comunismo português continua inamovível no seu ponto de vista: a Alemanha não se unificou, o que aconteceu foi a “anexação” da então RDA (oriental, comunista) pela RFA (ocidental, democrática). E a Liberdade não triunfou sobre o totalitarismo comunista, na Europa e no mundo, acabando com a chamada ‘guerra fria’.

Não, nem pensar. O que acontece, na ótica comunista, é que o “revisionismo histórico” celebra anualmente “a vitória do capitalismo”.

A narrativa é conhecida, tem esta data fixa e outras eventuais, como o Dia Europeu da Memória das Vítimas de Regimes Totalitários que, desde 2008, se comemora a 23 de Agosto na tentativa de fazer com que os democratas não esqueçam os crimes tanto de Hitler como de Estaline.

2. Às vezes, para o comunismo nacional, sucedem-se ocasiões extra para a propaganda, como no ano passado, quando, a 19 de setembro, a União Europeia aprovou no Parlamento Europeu uma resolução condenando os regimes comunista e fascista por terem cometido “genocídios e deportações” que “foram a causa da perda de vidas humanas e liberdade numa escala até agora nunca vista na história da humanidade”.

Todos nos lembramos do que aconteceu.

O PCP chamou-lhe “abjeta resolução” e, na ilustre companhia do Bloco de Esquerda, obviamente votou contra. Marisa Matias e João Ferreira, agora candidatos presidenciais, fizeram-no presencialmente na sua condição de deputados europeus.

Convém também lembrar que o PS, envergonhando a sua história pela necessidade de apoio da extrema-esquerda para o Governo, fez com que o Parlamento nacional passasse ao lado das palavras cruas, “fascismo” e “comunismo” – os dois irmãos siameses da história recente do mundo. O único voto aprovado no Parlamento português, mesmo assim tendo contra o PCP e o BE, foi o de “condenação de todos os regimes totalitários, reafirmando a importância de políticas de valorização da memória”. O exemplo acabado do esplendor da cobardia na política.

3. Esta dialética ideológica, que nos apouca como europeus, aparece à tona sempre que existe oportunidade, agora até do governo democrático PSD/CDS/PPM que vai dirigir a região autónoma dos Açores com o apoio parlamentar do Chega e da Iniciativa Liberal, todos eles partidos legais à luz da Constituição.

A ninguém, na direita séria, lembraria tentar minimizar os crimes de Hitler e do fascismo; mas à extrema-esquerda, perante o atual silêncio do PS, é permitido abusar da inteligência coletiva e relativizar os crimes do comunismo, de Estaline e outros. A isso devemos os escritos que aqui e ali vão tentando sugerir, quando não o afirmam explicitamente, que fascismo e comunismo são coisas incomparáveis. E não são. São absolutamente comparáveis – nas mortes que causaram, na tirania, no propósito dos ditadores, no desrespeito pelos direitos individuais, de expressão e propriedade, entre muitos outros. Não deveria ser necessário dizer isto em pleno século XXI, mas infelizmente ainda o é.

Precisamente por isso, o Parlamento europeu, na resolução 1481, aprovada a 25 de janeiro de 2006, diz o seguinte: “O grande público está muito pouco consciente dos crimes cometidos pelos regimes comunistas totalitários. Os partidos comunistas são legais e ainda ativos em certos países, mesmo quando não se demarcaram dos crimes cometidos no passado pelos regimes comunistas totalitários”.

Em Portugal é precisamente isso que se passa. E, ao mesmo tempo, o papão do ‘populismo’ tornou-se uma nova declinação da antiga ‘vontade popular’ em convergência com a teoria, pateta e patética, da eclosão do fascismo nos Açores. Haja paciência.

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