O Muro de Berlim nunca caiu

As décadas vividas sob regimes assentes na propaganda ajudam a explicar o actual caminho em direcção ao autoritarismo da Polónia e da Hungria.

No passado Sábado, celebraram-se os 30 anos da queda do Muro de Berlim. Ao ver as imagens das comemorações, lembrei-me de algo que li já não sei onde, escrito já não sei por quem, acerca de como, quando o Muro caiu, alguém ter comentado que “agora que a Europa de Leste se viu livre do Comunismo”, podia finalmente entregar-se ao seu “destino histórico”, o “autoritarismo”. E ao lembrar-me da graçola, não pude deixar de pensar que era bem capaz de ser certeira.

Na Polónia, o partido no poder (Lei e Justiça) tem feito um esforço relativamente bem sucedido para subverter a democracia do país e se consolidar no poder. Começou por nomear vários juízes mais amigáveis para o Tribunal Constitucional e para o Supremo Tribunal, minando a independência judicial; tomou o controlo da televisão  estatal, “limpando-a” de personalidades inconvenientes e usando-a como um braço de propaganda; mudou a lei para facilitar a nomeação de “boys” partidários para empregos no Estado, e não lhe tem faltado entusiasmo no que toca a práticas corruptas.

Já na Hungria, o Fidesz de Viktor Orbán tem usado o poder político para retirar aos órgãos de comunicação social menos subservientes os recursos suficientes para a sua sobrevivência, para encher jornais e canais de televisão com propagandistas, para entregar empresas lucrativas e subsídios europeus aos fiéis e dependentes, e para controlar os tribunais.

Talvez não seja uma coincidência que estes dois países tenham enveredado por este caminho de degradação das suas instituições políticas democráticas. Como Vasco Pulido Valente tem comentado, populismos autoritários nativistas como os da Polónia e da Hungria têm florescido em países cuja nacionalidade é, por assim dizer, “complicada”. Ambos foram, durante muito tempo, “nações sem estado e território“. As suas fronteiras e “composição” étnica mudaram várias vezes ao longo dos séculos.

A Polónia, em particular, tem uma longa história de invasões e ocupação por outras nações, alimentando a sua noção de si própria enquanto “Cristo das Nações“, destinada a sofrer sob o controlo do Mal estrangeiro. E embora a Hungria fosse uma das metades do poderoso império austro-húngaro, era vista (e via-se) como a menor das duas.

Para piorar as coisas, as cinco décadas de subordinação política à União Soviética terão certamente contribuído para o sentimento de trauma histórico dessas nações e para uma identidade e independência nacionais permanentemente ameaçadas.

Daí a retórica agressiva do Lei e Justiça contra “uma nova mistura de culturas e raças” e a “doença” daqueles “que combatem todos os sinais de religião”, ou o seu proclamado entusiasmo pela “tradição, consciência histórica” ​​e “amor pelo país”. Daí a bênção (e apoio financeiro) de Orbán ao “Grande Kurultáj“, um comício nacionalista que retrata a Hungria como o herdeiro direto de “sangue” dos grandes hunos, convenientemente travestido de festival equestre.

Mas, embora esse profundo trauma histórico nacional ajude a explicar o autoritarismo em que a Polónia e a Hungria parecem estar a cair, pode haver uma outra explicação, não menos importante: o facto das populações desses países terem vivido décadas com os olhos tapados pela “Cortina de Ferro”. Não é por acaso, afinal, que na Alemanha, por exemplo, o nativista e nazi-adjacente AfD tem os seus maiores sucessos eleitorais na metade oriental e ex-comunista do país.

Durante décadas, as populações da Europa de Leste viveram sob o jugo de regimes assentes na propaganda e dependentes da criação de uma “realidade” que existia apenas nas mentiras fabricadas dos seus propagandistas.

Como gente bem mais capaz que eu já abundantemente explicou, o resultado da manipulação totalitária da realidade não foi o de fazer as pessoas acreditarem em todas as mentiras propagadas pelas autoridades, mas criar nelas uma desconfiança cínica acerca de qualquer pedaço de informação, motivando menos a sua adesão do que a sua indiferença, mais do que suficiente (em conjunto com a repressão das polícias secretas) para que essas ditaduras sobrevivessem o tempo que sobreviveram.

E mesmo agora, passados tantos anos do seu desaparecimento, os efeitos secundários dessa propaganda continuam a fazer-se sentir.

Veja-se o caso da Polónia: em Abril de 2010, um avião em que viajava o então presidente polaco Lech Kaczynski, irmão gémeo de Jaroslaw Kaczynski, actual líder do Lei e Justiça, caiu perto de Smolensk, na Rússia, matando todos os seus ocupantes. Por genuína convicção ou por nisso ter vislumbrado uma oportunidade a explorar, Jaroslaw tem insistido (contra todos os factos) que o acidente não foi acidental, que os russos ou os seus opositores políticos internos assassinaram o seu irmão, e que a comunicação social e a classe política estão a mentir às pessoas.

Num ensaio na The Atlantic, a historiadora Anne Applebaum menciona uma ex-amiga que “twittou sobre a responsabilidade judaica pelo Holocausto” e “repete” e “amplifica” a “linguagem” das “principais figuras da alt-right americana”, assim como um “vizinho” que chora por ter “perdido a mãe” para os “mantras conspirativos” da Rádio Maryja, próxima do governo. “Ela vive noutro mundo”, lamenta o vizinho de Applebaum. A própria Applebaum era frequentemente retratada pelos órgãos de comunicação social próximos do governo como “a coordenadora judia da imprensa internacional e a directora secreta da cobertura negativa da Polónia”.

Na Hungria, como Applebaum nota no seu ensaio, as teorias da conspiração também são um elemento fulcral do projecto de consolidação do poder de Orbán: como o bilionário (judeu) George Soros “conspira” com a União Europeia e os “liberais estrangeiros” para “inundar” o país de muçulmanos e “promover” a homossexualidade, com o nefando propósito de destruir a sua “cultura cristã”, Orbán precisa de lutar pela “verdadeira” identidade do país e usar todos os meios à sua disposição para proteger a “democracia iliberal” que supostamente lhe permite alcançar esse objetivo. “O bem da nação”, disse um deputado polaco para o aplauso dos seus pares do Lei e Justiça, “está acima da lei”.

Uma coisa é um político tentar usar mentiras e teorias da conspiração para servir os seus interesses. Outra bem diferente é esse político ter sucesso ao fazê-lo. Isso significa que uma grande parte das pessoas acredita realmente nessas mentiras e teorias da conspiração.

Em países como a Polónia e Hungria, as pessoas acreditam nos políticos que recorrem a esses truques porque décadas de propaganda e domínio totalitário os condicionaram a desconfiar de tudo e assim, paradoxalmente, a aceitarem até as mentiras mais ridículas e forçadas como plausíveis e convincentes.

Porque a realidade em que viviam não passava de propaganda, a propaganda parece-lhes real e a verdade uma conspiração contra elas. Tudo o que qualquer outra pessoa diz faz parte de uma tenebrosa cabala contra a nação e o povo, e qualquer mentira ou crença inacreditável é uma verdade patriótica. Mentalmente, grande parte das populações polaca e húngara ainda vivem do outro lado de um “Muro de Berlim” psicológico, uma barreira que nunca caiu com o cimento do verdadeiro há 30 anos atrás.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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