O ódio não é o remédio

Como nas outras áreas do progresso, só mais educação, mais humanismo e mais cultura poderão conduzir a mais justiça e equidade. A base legal está na Constituição, falta dar o passo da mentalidade.

A morte brutal de George Floyd foi horrível, mas não foi em vão. Levantou por todo o mundo civilizado uma discussão necessária, diria mesmo, urgente. Cada país, cada sociedade, cada comunidade, viram-se obrigados a uma reflexão séria sobre o racismo. Pena é, que esta reflexão fique restrita ao que conhecemos como mundo ocidental ou, segundo os nossos padrões, o mundo civilizado.

É verdade que a escravatura mais recente e o colonialismo clássico estão historicamente ligados ao “ocidente”, mas estão também, infelizmente, longe de lhe garantir o monopólio racista no mundo. Em África, no Médio Oriente, em diferentes partes da Ásia, continuam a subsistir diferentes formas insidiosas de racismo, com marcas violentíssimas na vida presente de milhões de ser humanos, que continuam incompreensivelmente sem voz no palco do mundo.

Ainda assim, não é por existirem mais problemas no mundo, que se deva ou possa relativizar o racismo na nossa sociedade. Cada um deve tratar em primeiro lugar dos problemas que lhe são mais próximos.

Neste sentido, é obrigatório reflectir sobre a situação portuguesa. Para um pensamento sério sobre a matéria, há que distinguir duas realidades que não são coincidentes. Há manifestamente racismo em Portugal, é recorrente e manifesta-se persistentemente; não há como descrever a realidade com outras palavras; não é por ser comparativamente em menor grau e intensidade que noutros países, que devemos prestar-lhe menos atenção. Por outro lado, e sem contradição com o que acabo de afirmar, entendo que Portugal não é um país racista.

Passo a explicar, vivemos há muitas décadas num fenómeno social dual, em que a discriminação e o racismo variam na proporção inversa do nível de instrução e cultura. Não é novidade, o preconceito é dos sintomas mais evidentes da ignorância. Pessoas mais educadas, mais cultas e mais cosmopolitas compreendem a diferença como mais-valia e a diversidade como valorização do todo social, enquanto que pessoas com menos cultura e horizontes mais estreitos temem o diferente, rejeitam tudo o que não conhecem.

Ao mesmo tempo que há uma sociedade que se mistura normal e saudavelmente na academia, nas artes, na vida social, subsistem aqueles que mudam de passeio se se cruzam com um negro numa rua mais deserta, os que perpetuam estereótipos ignorantes e uma inegável dificuldade de mobilidade profissional. As áreas que não passam pela academia e pela função pública, são manifestamente adversas para quem é negro. Se é possível encontrar médicos, professores, investigadores negros, não encontramos facilmente CEO, CFO e outros cargos de topo no privado desempenhados por negros.

Na política, por ter sido multicultural e humanista desde a fundação, só nos quadros do CDS aos mais diversos níveis encontramos ao longo dos 46 anos de democracia uma multiculturalidade natural e mais próxima da realidade social do país. Pode-se dizer que, ainda que de modo inconsciente, o grupo do homem branco se protege e perpetua. Há claramente uma mudança a empreender, uma mudança da naturalidade e da normalidade, que não será imposta por quotas, pela violência ou por decreto.

Como nas outras áreas do progresso, só mais educação, mais humanismo e mais cultura poderão conduzir a mais justiça e equidade. A base legal está na Constituição, falta dar o passo da mentalidade. Estivemos muito mais longe, exige-se mais vigor na caminhada.

Dito isto, apesar da existência óbvia de comportamentos sociais condenáveis e de o caminho para uma mentalidade comum mais civilizada estar longe de se encontrar num patamar aceitável, Portugal não pode ser considerado um país racista. Temos uma série de pecados históricos e um igual número de conquistas. Sim, fomos protagonistas malignos da escravatura africana transatlântica, nada poderá apagar este facto.

Ao mesmo tempo, com custos económicos brutais, Portugal andou décadas à frente dos seus congéneres na abolição dessa mesma escravatura, dando um sinal determinante ao mundo. Sim, tivemos no século XX uma lei do indigenato discriminadora e segregacionista no Portugal insular e ultramarino. Ao mesmo tempo, muito antes dos Estados Unidos, sem nunca ter enveredado pela desumanidade do apartheid, o Estado Português concedeu em 1961, pela mão de Adriano Moreira, igualdade de cidadania a todos os cidadãos do império, independentemente de cor, etnia, religião; um avanço notável para a época, que muito incómodo causou a nível internacional.

Os grandes símbolos do Portugal dos anos 60 eram uma mulher e um negro, Amália e Eusébio eram a nova aristocracia portuguesa, seguiram-se felizmente muitos outros. Em 1967 Eduardo Nascimento representava todo o país na Eurovisão, a Europa não gostou da ousadia portuguesa, mas ainda hoje é difícil imaginar naquele palco alguém mais cool que Nascimento ou mais revolucionário que Simone. A convivência nas grandes cidades cosmopolitas do ultramar desfazia barreiras e o empoderamento dos “portugueses de África” por via da administração pública, das Forças Armadas e da academia era um facto.

Num país onde a censura era o que se sabe, a vida e a morte do Dr. Martin Luther King foram acompanhadas pela imprensa com grande destaque e abertura. Pode dizer-se que a estratégia do “Mundo Português”, por oposição à do império colonial clássico, criou uma pedagogia de Estado que contribuiu significativamente para mitigar os problemas que emanam da base da pirâmide social. Houve muito racismo e exploração em África, mas passou a haver a partir de dado momento uma ideia de primado da lei que, sendo igual para todos, torna o prevaricador em pária e imputável, o que faz toda a diferença no curso das mentalidades. Deixou de ser normal para passar a ser errado, proibido e punível.

Com esta tradição secular de vanguarda no percurso da civilização, não é correcto considerar Portugal um país racista. Devemos antes, todos sem excepção, encarar esta herança positiva como uma missão, em vez de nos martirizarmos com os erros cometidos. A correcção histórica dos erros cometidos foi em cada momento inversão de caminho, a mudança para patamares superiores de civilização. Fizemo-lo por consciência política, social e humana, soubemos agir antes de grandes revoltas e revoluções; esta pedagogia deve preservar-se no presente.

Os fenómenos a que temos assistido em Portugal, por manifesta indução de certa esquerda, da extrema-esquerda e dos grupos afiliados de guerrilha urbana, só contribuem para uma clivagem social e mais discriminação. Aliás, com justiça, com paz social e com equidade, os radicais extinguem-se, não têm razão de existir, logo fomentam o caos e a divisão a todo o transe. Ao discurso de ódio de Joacine, opõe-se a atoarda racista e xenófoba de Ventura. À estupidez insolente do cartaz do cachopo da manife, responde um execrável skinhead com um grafiti manhoso.

Em resumo, ao ódio responde-se com mais ódio. Vandalizam estátuas, profanam símbolos, exigem que se reescreva a história, que se purgue a memória colectiva; novamente o ódio, a fractura social, o enfraquecimento da ideia de nação. Para estes, a cor da pele é, mais uma vez, meramente instrumental. Este é o outro racismo. O que impede de se pensar seriamente o que fazer para cada dia haver menos discriminação, mais igualdade de oportunidades, mais humanização na sociedade.

Na via do ódio dos extremos, todos perdem. Na via da construção humanista todos temos a ganhar, basta que nos conheçamos melhor e o caminho faz-se. A pista de dança do B.Leza, as mesas do Aziz, as noites do Principe no Music Box, a diversidade das famílias do Vida Norte, são o retrato do Portugal que já existe e que queremos maior, mais arejado e novamente exemplo de civilização. O Portugal que é rigorosamente de todos.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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