O oximoro de Lucas Pires

Há muito que os centristas se encontram num plano de indefinição ideológica do seu campo político, exatamente porque o oximoro de ser simultaneamente conservador e liberal tem influenciado a linha de ação de alguns dos seus dirigentes, e impedido o crescimento eleitoral do partido.

Francisco Lucas Pires foi o primeiro político do Portugal democrático a construir um discurso liberal de direita. A dimensão ideológica da sua prática política, enquanto líder do CDS, assentou no conservadorismo liberal e não propriamente na democracia cristã.

Há muito que os centristas se encontram num plano de indefinição ideológica do seu campo político, exatamente porque o oximoro de ser simultaneamente conservador e liberal tem influenciado a linha de ação de alguns dos seus dirigentes, e impedido o crescimento eleitoral do partido.

A tendência pós-moderna dos intelectuais de direita sustentarem ideias fundamentalmente contraditórias, dando-lhes uma estética aparentemente convincente aos olhos dos incautos, não tende a colher resultados grandiosos.

Embora Lucas Pires e, hoje os seus sequazes, focasse recorrentemente o liberalismo pós-moderno na sua vertente económica, há outros aspetos em que esse mesmo liberalismo interage oferecendo perigo, como sejam a vida, a família, a religião, a justiça, a cultura, a ética, a tradição, a identidade, etc.

O liberalismo não só está em contradição com o conservadorismo como colide com ele, e embora os defensores da combinação destes conceitos o omitam, esta inconciliabilidade é evidente nos seus teóricos, de Locke a Rawls.

O liberalismo defende o aborto com base nos índices de incidência, no risco da sua prática, e na liberdade da mulher decidir sobre o próprio corpo, declinando como sustentam os conservadores, o direito à vida do feto.

O liberalismo favorece o individualismo e o imediatismo das relações, pelo que tende a ser um fator dissolutivo da família tradicional que o conservadorismo defende, assente nos afetos e na construção de projetos de vida comuns.

O liberalismo é globalista, não impondo restrições à livre circulação de pessoas e capitais, promovendo uma sociedade de mercado, os Estados sem fronteiras, e soberanias flácidas.

Também a religião, para os liberais, deverá ser desvinculada da comunidade e tão-só tolerada como prática privada, e temas como a ideologia de género e as causas LGBT, devem seguir uma agenda política cada vez mais priorizada, tudo isto ao arrepio do ementário conservador.

O quadro axiológico dos conservadores liberais está ferido de coerência e não tem conduzido a bom porto. Pela intelecção impõe-se o estudo do pensamento de Lucas Pires, mas será um erro manter a tese, que muitos ainda sustentam, de que o seu legado deva inspirar o futuro da direita portuguesa.

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