O país do faz de conta

A economia está verdadeiramente parada e pouco daquilo que o Governo diz é 100% verdade.

A economia está verdadeiramente parada e pouco daquilo que o Governo diz é 100% verdade. As medidas anunciadas e executadas são exíguas. Os dados da CIP dizem que 61% das empresas que solicitaram linhas bancárias de financiamento de apoio devido à crise gerada pela pandemia, ainda nada receberam. E aquilo que era o instrumento de verdadeira ajuda às empresas na manutenção dos postos de trabalho e tesouraria, o layoff simplificado, deverá acabar no atual modelo para ser substituído por um outro intrumento a que terão acesso empresas que deixaram de faturar por imposição obrigatória de encerramento. Já aqui o dissemos que multinacionais e outras grandes empresas aproveitaram o layoff quando não precisavam dele, num claro atentado a princípios morais porque se devem nortear as empresas comerciais. Esse erro, no entanto, poderia ser corrigido sem necessidade de acabar com um instrumento em que os gestores contavam com ele até final do ano. E esta necessidade tem fundamento porque a economia está lenta na recuperação, pode demorar dois a três anos a atingir o nível de 2019 e até aí teremos desemprego em ascensão. Por isso este é um Governo do faz de conta e um país do faz de conta.

O tema do desemprego é gritante. O INE – Instituto Nacional de Estatística admitiu em abril que tem dois números para o desemprego. Os números provisórios para abril indicam uma taxa de desemprego de 6,3%, só que continuam dezenas de milhar de pessoas a ser classificadas como inativos e não desempregados porque não puderam procurar emprego devido às restrições de circulação ou porque foram colocados em layoff total mas não tiveram uma paragem igual ou superior a três meses e a supressão do salário não foi superior a 50% e, logo, estão empregados. E isto é mais do mesmo do país que faz de conta. Ora, temos a taxa de desemprego oficial e a oficiosa, sendo que esta pode ser 8%, 10% ou 12%. Saberemos durante o verão.

Enfim, temos exiguidade das medidas, mesquinhez nas decisões e clara impotência do poder público e governativo que aposta no marketing e não na taxa de execução.

Faz de conta que implementámos um verdadeiro layoff, faz de conta que houve subvenções quando a maioria das empresas ficaram de fora e faz de conta que temos um desemprego baixo através de uma contabilidade oficial. E ao leme do país temos governantes que desistiram de liderar e governar e preferiram ir buscar um conselheiro especial (ou um paraministro como já chamaram ao novo António Costa) de um grupo privado que até criticou o Estado por ficar de fora no processo do petróleo do Algarve. E ficamos com um arquiteto que não foi sufragado em eleições, nem pelo parlamento, nem pelo Presidente da República e que não está investido de nada e irá fazer de conta que em alguns dias fará de primeiro-ministro. Pela positiva fica a expetativa sobre a combinação virtuosa entre Estado e mercado e um “out of the box” que vai contra a ortodoxia da direita e da esquerda. Passos Coelho, o PM do tempo da Troika e num outro cenário com o país em recessão fulminante, já tinha testado a receita.

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