Publicar um artigo de opinião a 31 de Dezembro, embora uma mera coincidência de periodicidade, provoca uma certa “mexida” interior e leva (levou-me) a uma imiscuição na política (nacional e internacional, passada e futura), não para uma análise de fundo, isso fica para os entendidos, mas a um desabafo, embora tudo quanto se escreve não seja imune a umas “pitadas” de política, apesar das afirmações de independência por muitos proclamada (de que sempre desconfio).
Desconforto nacional
O país ou muito me engano ou está a entrar num período de Spinumviva. Por quanto tempo?! Já parece aquele anúncio televisivo: prima 1, prima 2… A “prima 1” esfumou-se pelo arquivamento singular que teve, antes anunciado de prenda de Natal pelo PGR. O país ficou a perder com a forma de arquivamento e com a intervenção de Bruxelas de Luis Montenegro, a propósito, a glorificar-se, disparando sobre todos, entre eles a comunicação social (à maneira Trump/Ventura, apenas mais adocicada por influência da linguagem Bruxelense), porque todo o processo na vertente ético-política (conflitos de interesses) ficou descredibilizado e somente por culpa de Montenegro que nunca, em momento oportuno, deu a informação que devia ao país.
Agora, surgiu “a prima 2 do anúncio”, com um dos candidatos à Presidência da República, cujos contornos na globalidade, ainda, se desconhecem. De comum, o problema dos clientes, vulgo lóbis.
Sobre isto, uma nota. Alguns políticos, na sua gestão pessoal dos negócios, desempenham trabalho de intermediação, ou seja, desta ou daquela forma, construíram um portfólio alargado de influências que exploram (por sua iniciativa ou de terceiros) na angariação de trabalhos a executar por outros (normalmente empresas) e cobram por isso uma percentagem sobre o valor global do trabalho intermediado. Uma situação destas não será ilegal, mas, em vários casos, é obscura, sobretudo devido aos meandros em que se movem, enquadrando-se, por isso, numa ética duvidosa, levantando suspeições ou, no mínimo, interrogações, sobretudo, quando à partida nada se conjuga com os conhecimentos técnicos do interveniente ou da empresa pessoal de consultoria que, por vezes, nem trabalhadores tem.
Este potencial agravamento do ambiente Spinumviva, razão deste desabafo, não está isento de culpas variadas. António Costa aparece, em meu entender, com uma quota-parte significativa com o governo de incompetência que escolheu, apesar da maioria absoluta que o país lhe deu e que não soube gerir. A sua ambição já não era Portugal, mas a Europa. O ditado “Deus escreve direito por linhas tortas” deu no que deu. E lá chegou à Europa. António Costa, com a maioria absoluta, poderia ter-se empenhado num governo eficaz e demonstrar ao que vinha. Embora, com o cutelo de Marcelo sobre a cabeça de não o deixar sair para a Europa, não se empenhou em bem governar e, assim, escancarou o país à direita e extrema-direita com o descalabro de Governação a que procedeu. Perdeu a oportunidade de introduzir mudanças substanciais, a nível económico e social, resolvendo ou começando a resolver problemas como a habitação de que dispunha de condições e financiamento e mesmo avançar na saúde. Faltou-lhe desígnio!
E daí o “desassossego”. Aonde nos levará este ambiente complexo e, por quanto tempo, se tudo se conjugar como parece provável?!
Uma vez mais por falta de entendimento na esquerda portuguesa não se soube avançar para um candidato presidencial agregador. As saídas apresentam-se mesmo reduzidas. A aposta na segunda divisão nunca leva, no imediato, a campeão nacional.
Uma ténue réstia de evitar a consolidação do ambiente Spinumviva reside na aposta no candidato não partidário, apesar de todas as indefinições que apresenta e de preconceitos de muitos com a sua origem. No mínimo, tem personalidade e evitaria lobistas opacos na Presidência!
A nível mundial, as maiores dificuldades
Chegou-nos agora o Chile com Kast, um fervoroso adepto de Pinochet, filho dum ex-membro alemão do partido nazi de Hitler. O Chile não é caso isolado. Desde Trump, passando por Bukele em Salvador, pelo ultraliberal Milei na Argentina, pela eleição de Asfura na semana passada nas Honduras, tudo se conjuga para que novos governos da direita radical na Bolívia e Equador se lhes juntem e com várias outras eleições a prazo na calha, a situação não vai aliviar no continente americano.
O Continente americano está mesmo a tornar-se o quintal de Trump, agravado ainda pelo uso militar da força.
Um sobrevoo agora pela Europa não nos dá um ambiente mais sadio. É um “terreiro” desgarrado, sem liderança, onde tudo germina. Raros os países da União Europeia onde não se note uma tendência de fortalecimento da extrema-direita ou direita radical e, em países como o Reino Unido, a situação não é mais risonha, para além da guerra Rússia-Ucrânia que, em tudo, nos assusta.
A guerra parece ter induzido uma mudança de “chip” em alguns países europeus, mudanças de chips, sobretudo, cruzando-as com a história. Países de algum status pacifista ou então de algum pacifismo “imposto” pelo decorrer da história nestes últimos séculos e que agora se desprenderam, estão a rearmar-se, ou pior: por razão do seu tecido industrial a tornar-se obsoleto, a emigrar para a produção de armamento. Um reinício, a gerar turbulência e ansiedade em termos de futuro, porque o “fundo da história”, quase sempre se repete, embora com ajustamento às circunstâncias. A primeira e a segunda grandes guerras mundiais tiveram muito de comum.
Estarei a blasfemar, dirão os historiadores. Certo, mas também como já nos apregoaram o “fim da história” numa grande falha de visão, posso, não apregoando nada, desabafar estas dúvidas!
Saltando para os restantes continentes, África e Ásia, a situação também não é brilhante. E a extrema-direita ganha pontos, tanto que o próprio Trump se sentiu coagido a recomendar contenção ao Japão nas posições com a China. Se aqui se juntar as turbulências que a China anda a “provocar” ao Ocidente na IA e nos semicondutores, (sem já falar das terras raras), pressente-se “um vulcão” de guerra económica em ebulição.
Desabafando…
O Planeta está numa encruzilhada com as organizações internacionais a patinar. O Ocidente global em pane e em desagregação e a recentrar-se desde Obama. Será que na forja existem alternativas a nível de blocos, regiões ou globais? E haverá actores capazes?!
O “Sul Global”, esse conceito de muitas configurações, poderá reunir grupos de países com sintonias comuns e penso nos BRICS+, que já detêm instrumentos e sobretudo dinâmica interna com algum sentido. São atrativos de outros mais países. Já criaram junto de si um “agrupamento” de países parceiros, mas faltam-lhes passos de monta ainda. Admito que, durante 2025, atravessaram dores de crescimento. Veremos se, em 2026, a presidência da Índia incutirá maior dinâmica. É importante os BRICS ganharem músculo a nível mundial, sobretudo na área financeira, a da desdolarização e interessante seria que a Europa pensasse num relacionamento “proveitoso” com este grupo de países.
Os conflitos são muitos. Há uma investida fortíssima dos movimentos da extrema-direita e uma grande organização mundial na forja. Até onde irá? Os actores de extrema-direita são múltiplos e se conseguirem coordenar esforços, o Planeta, no mínimo, baloiça… a começar pela Europa.



