O país sem ideologia

O eleitorado em Portugal é dos mais lúcidos e maduros da Europa. Umas vezes é de esquerda, outras de direita. Vota em causas e em pessoas. Não confia a governação a ideologias e é pouco permeável a populismos.

Os resultados eleitorais do dia 6 de outubro tiveram a particularidade de terem sido razoavelmente antecipados por muitos. A abstenção subiu. O PS não alcançou maioria absoluta. O PSD cresceu relativamente às europeias, mas não muito. O CDS ia-se esfumando. O PAN engrossou fileiras e novos partidos de esquerda, de direita e de extrema-direita conseguiram eleger deputados. Nada de muito surpreendente saiu das urnas e consolidou-se até a ideia de que Portugal é um país menos dado a ideologias e mais a causas e personagens.

O primeiro indicador disso é a circunstância de tanto a direita como a esquerda já terem tido maiorias absolutas. O país não vira à esquerda ou à direita ciclicamente. Galvaniza-se antes com determinados personagens ou com certas medidas prometidas e é isso que mais influencia eleições. O entusiasmo tem sido mais negativo que positivo. Cavaco, Guterres, Durão, Sócrates, Passos e até Costa chegaram ao poder sobretudo pela mão do antagonismo do eleitorado com os seus antecessores. Não foi a subscrição eleitoral das ideologias com que se apresentaram às urnas e com base nas quais prometeram tanto choques fiscais (Durão) como reforço do investimento público (Sócrates).

O crescimento do PAN reforça também esta ideia. Para além da preocupação com os animais e com a natureza, poucos sabem o que defende o PAN e como se posicionarão os seus quatro deputados em matérias não relacionadas com o motivo justificativo do partido. Pelo que se viu nos debates, possivelmente nem o próprio PAN saberá. No entanto, a sua base de apoio cresceu em todo o país devido à identificação com a causa.

Ao contrário do que possa aparentar, mesmo a conquista de um lugar no hemiciclo pelo Chega não contradiz esta ideia. Alguns indicadores revelam que este partido cresceu em áreas onde a CDU era mais sólida (e onde entretanto caiu), o que também sugere que não é tanto a ideologia, mas antes determinadas mensagem populistas (lembra-se dos cartazes “Basta de roubalheira” ou “Tantos deputados para quê?”) que justificam o voto nestes partidos.

Não obstante, nas redes sociais, uma minoria iluminada, que olha muito para o ecrã e pouco para o país, vive num mundo paralelo onde decorre um ininterrupto e acalorado debate ideológico esquerda-direita onde tudo se explica por esta lente. A nova composição parlamentar, mais pulverizada e ideológica, tem sido como gasolina numa fogueira. Tanto se prevê o comunismo como os ventos do fascismo a chegar ao país.

Permito-me, porém, dizer que não há que ter receios. O eleitorado em Portugal é dos mais lúcidos e maduros da Europa. Confia em quem se mostra credivelmente capaz de assumir funções governativas e de resolver os principais problemas que o país circunstancialmente apresenta. Umas vezes é de esquerda, outras de direita. Vota em causas e em pessoas. Não confia a governação a ideologias e é pouco permeável a populismos. Ainda que muitos não vejam isso, é esta a realidade e isso, por si só, é um descanso.

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