O País somos nós

Nunca é demais saudar o trabalho do juiz Carlos Alexandre, e de outras pessoas que o acompanham, pela coragem, claro, mas sobretudo pelo sentido do dever.

1. Sempre que um dos capatazes dos bancos participantes no saque que convocou de novo a troika vai ao Parlamento, e o último foi Nuno Vasconcelos, da defunta Ongoing, a maioria dos portugueses, que não os conheciam, abre a boca de espanto: “Como é possível!?” Era. Foi. Poderá continuar a ser, infelizmente. Esse espanto já tinha tido outras edições antes – com José Berardo, com Luís Filipe Vieira, agora detido e provavelmente a caminho de ser obrigado a deixar o Benfica.

E também, noutra dimensão, já não a da mediocridade intelectual mas sob o registo da absoluta desfaçatez, essa surpresa despertara-se até com personagens de cariz mais requintado, como Ricardo Salgado, Zeinal Bava, Henrique Granadeiro, mesmo ex-governadores do Banco de Portugal, gente que se resguardou debaixo do guarda-chuva da amnésia para escapar momentaneamente à Justiça, que não ao opróbrio e à vergonha.

2. Como aqui já escrevi várias vezes, vivemos o julgamento de uma época. O regime português, que gostamos de considerar uma verdadeira democracia, está em exibição.

Chegámos aqui por força de uma sociedade refém da economia circular da corrupção. Políticos e homens do dinheiro uniram-se nos bancos, nas sociedades de advogados, na construção, no desporto, nos mais diversos sectores, até no Parlamento de Ferro Rodrigues, aqui para fazerem as leis e nomearem a seu bel prazer.

A escolha do procurador português para a recentemente criada procuradoria geral europeia, que vai ter mais poderes para investigar a corrupção na União Europeia e ter especial cuidado com aplicação dos fundos, foi uma boa demonstração do que ainda pode ser este estado de coisas. Mas também há muito amadorismo político, como António Costa e Fernando Medina demonstraram a propósito do apoio a Luís Filipe Vieira nas recentes eleições do Benfica. Mesmo eu, pessimista militante, quero acreditar que tenha sido apenas isso.

3. Durante anos a investigação não avançou porque faltavam, e continuam a faltar, meios. Isso não foi ingénuo do ponto de vista da política e do poder.

Mas, paralelamente, também é verdade que havia muita mediocridade e rotina instalada do lado da investigação. É por isso que nunca é demais saudar o trabalho do juiz Carlos Alexandre, e de outras pessoas que o acompanham, pela coragem, claro, mas sobretudo pelo profissionalismo e sentido do dever.

A sociedade portuguesa precisa destes processos, como do escrutínio permanente, do debate constante, para se regenerar e em todos os tecidos.

4. Aquilo que distingue, separa e classifica as sociedades são as leis e a sua aplicação. Como aquilo que classifica uma economia é a regulação e a concorrência.

Durante anos, Portugal viveu um desvario, um saque, e todos somos culpados. Estes homens que hoje nos envergonham saíram daqui, não foram feitos em moldes especiais. Não há desculpas que evitem o reconhecimento de um falhanço geral, que começa nos partidos, nas suas seitas – que vistas de outro ângulo são essenciais ao funcionamento democrático.

Não há volta a dar: para evitarmos mais fenómenos como o de Sócrates, precisamos de mais juízes como Carlos Alexandre, sim; mas, sobretudo, precisamos de mais cidadãos como Ramalho Eanes, de gente séria, íntegra. Não é difícil descortinar muitos desses portugueses, que vale a pena distinguir com respeito. É um trabalho individual que começa em cada um de nós e na exigência que colocamos no pequeno mundo que gira à nossa volta.

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