O papel da prevenção na saúde

A prevenção anda de braço dado com o desenvolvimento das pessoas. Portugal precisa de uma agenda da prevenção e do desenvolvimento das pessoas para a coesão social e competitividade que vá para além dos ciclos políticos.

No passado dia 26 de Outubro, em plena Convenção Nacional da Saúde, tive oportunidade de partilhar uma visão sobre a prevenção na saúde, no seu contexto e para além dele. Este texto parte dessa apresentação.

A minha mãe nasceu nos anos 30. Aos oito anos teve uma doença respiratória e não fez mais do que a 2.ª classe (viria a fazer a 4ª classe com mais de 30 anos). Foi trabalhar aos dez anos para casa de uma tia aprendendo a actividade de costureira. Passou por muitas dificuldades, como carências alimentares. O exercício físico nunca fez parte dos seus hábitos de vida. Foram muitas horas e posturas de trabalho incorrectas, durante muitos anos, contribuindo para vários problemas de saúde, especificamente desde os seus 60 anos até hoje.

Daqui a 30 anos teremos 40% da população com idade superior a 60 anos, e por isso, sem prevenção, que comece já hoje, o peso da doença sobre o Serviço Nacional de saúde (SNS) será ainda maior. Sem prevenção alimentaremos ainda mais os círculos de pobreza e com isso a pressão sobre a segurança social e a sua sustentabilidade. Esta prevenção deve, por isso mesmo, começar no início do ciclo de vida.

E qual é o investimento em prevenção em Portugal? Em 2015, foi de 1% do orçamento da saúde. E porquê? Julgo que temos razões económicas e políticas.

São económicas devido à ausência de estímulos a medidas de médio e longo prazo, que reconheçam, valorizem e financiem o investimento na promoção de hábitos de vida saudável quando só vamos poder verificar poupanças devido à redução da obesidade e diabetes num horizonte de décadas, 10, 20, 30 anos… E são políticas, pois os ciclos políticos são muito mais curtos do que o tempo que esperamos para ver resultados deste investimento… e os votos em eleições são já amanhã.

Necessitamos de decisões políticas corajosas, que façam opções para além dos votos no curto prazo e que se foquem no melhor interesse da população, agora e no futuro. Para ajudar nesta concretização é necessária mais literacia em saúde.

Cidadãos que compreendam a forma como nos comportamos, o que sentimos e os impactos que isso tem na nossa saúde, serão cidadãos que compreenderão melhor o que significa mais apoio à prevenção. E esse é um impacto sistémico do investimento necessário em literacia, para além dos benefícios imediatos para a saúde que nos traz o reconhecimento de sintomas e a compreensão do que eles podem ou não significar ou de como podemos evitar certas doenças mudando certos comportamentos.

Não há sustentabilidade do SNS sem prevenção! Se o diagnóstico precoce (prevenção secundária) é importante, mais ainda é a prevenção primária, actuando sobre factores de risco ainda antes do aparecimento de doenças ou mesmo de simples problemas. Isto é muito relevante quando estamos afalar da depressão, doenças cardiovasculares e muitas outras patologias que têm factores de risco associados ao comportamento e aos hábitos de vida.

A prevenção da maior parte das causas de morte faz-se através dos comportamentos, nomeadamente os que estão associados aos hábitos alimentares, tabagismo, consumo excessivo de álcool, sedentarismo, obesidade e dificuldades de gestão do stresse.

Vivemos numa sociedade que procura na tecnologia a fórmula mágica para resolução de muitos problemas. Na prevenção a tecnologia é um aliado, mas não é a solução só por si. Seja qual for a tecnologia ela continuará a conviver com comportamentos, emoções e decisões humanas. A história assim nos tem demonstrado, desde a roda, à máquina a vapor, ao automóvel, à electricidade ou ao computador e à internet. Múltiplas tarefas humanas foram substituídas, mas não as pessoas e o que nelas as faz humanas. A tecnologia não é uma panaceia.

Também relevante é relembrar que a prevenção se faz no contexto da saúde, mas também na escola, por exemplo com os programas de desenvolvimento de competências sócio-emocionais ou, nos locais de trabalho, com a avaliação dos riscos psicossociais e planos de prevenção dos mesmos, que promovam a saúde mental no trabalho através de mudanças nos comportamentos das lideranças e nos processos e práticas de gestão no geral.

Sendo que aqui destaco a posição e alerta de 17 Ordens profissionais no âmbito do Conselho Nacional das Ordens Profissionais (CNOP), representando mais de 400.000 profissionais, defendendo medidas imediatas para fazer face a este desafio e pedindo a rápida adesão ao recomendado recentemente pela Direcção-geral da Saúde.

A prevenção anda de braço dado com o desenvolvimento das pessoas. Portugal precisa de uma agenda da prevenção e do desenvolvimento das pessoas para a coesão social e competitividade que vá para além dos ciclos políticos, com base na evidência científica e no chão comum do interesse público e do acesso inclusivo à saúde por todas as pessoas.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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