O papel dos moderados

Já não é exagero afirmar que as democracias liberais atravessam a maior crise desde o pós guerra.

Já não é exagero afirmar que as democracias liberais atravessam a maior crise desde o pós guerra. Os populistas, nacionalistas, xenófobos e autoritários ganham cada vez mais terreno um pouco por todo o mundo: Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro no Brasil, Putin na Rússia, Erdogan na Turquia, Maduro na Venezuela, Orban na Hungria, Conte e Salvini em Itália… a lista é cada vez maior, contribuindo para uma crescente instabilidade na economia, nos mercados financeiros e nas relações internacionais.

Em alguns destes países, a democracia parlamentar continua a existir de um ponto de vista formal. Existem eleições regulares, diferentes partidos políticos e uma aparência de liberdade. Mas, na verdade, não existem mecanismos eficazes de checks and balances nem verdadeira separação de poderes. São democracias formais. A Rússia, a Turquia e a Hungria estão nesta divisão há vários anos. Trump tenta fazer o mesmo nos Estados Unidos, enquanto Bolsonaro promete seguir pelo mesmo caminho no Brasil. Conte e Salvini ameaçam o futuro da Europa. E, no que toca à Venezuela, pouca gente duvida de que Maduro é um ditador.

O que fazer para impedir o triunfo dos extremistas? A resposta está no papel dos políticos moderados.

Em primeiro lugar, temos de ter em conta que a erosão da democracia parlamentar não começou com estas figuras. Vejamos o caso dos Estados Unidos: a ascensão de Trump representa o culminar de um processo degenerativo que teve início nos anos 80, quando uma nova geração de republicanos, onde pontificavam figuras como Newt Gringrich, rejeitou o sistema de consenso bipartidário que servira de base à democracia norte-americana nos 200 anos anteriores. Esse consenso entre Democratas e Republicanos permitira à democracia dos Estados Unidos superar provas como as tentações hegemónicas de Roosevelt nos anos 30 ou o caso Watergate, com Nixon. Quando um presidente passava das marcas, os líderes republicanos e democratas no congresso uniam-se para o travar. O interesse nacional assim o ditava.

Tudo isso mudou com a crescente crispação a que se assistiu a partir dos anos 80 e das “guerras culturais” que ainda hoje se travam. O adversário político deixou de ser alguém que, sendo bem intencionado, não concorda connosco, para passar a ser um inimigo declarado e um alvo a abater. Hoje, Trump tem a vida mais facilitada do que Nixon alguma vez teve, porque aqueles que o poderiam travar os líderes republicanos no congresso não estão dispostos a ir contra o “seu” presidente. O espírito de trincheira fala mais alto do que o interesse nacional.

O que aconteceu nos Estados Unidos passou-se também na Europa, incluindo em Portugal, em maior ou menor medida. Basta assistir a um debate parlamentar para nos apercebermos disso. Os Trumps e os Bolsonaros alimentam-se deste ambiente tóxico em que se travam os combates políticos, sobretudo nos media e nas redes sociais.

Urge, por isso, reconstruir um espírito de cooperação entre os diferentes partidos democráticos, sejam de esquerda ou de direita. E perante a ascensão dos populistas e dos autoritários, é necessário que  os partidos democráticos não só trabalhem juntos como não caiam na armadilha de lhes abrir a porta. É costume dizer-se que Hitler foi eleito, mas não foi assim que chegou ao poder. Hitler apenas se tornou chanceler da Alemanha porque os partidos tradicionais lhe entregaram o poder, na ilusão de que conseguiriam controlar o “cabo austríaco”. Enganaram-se.

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