O plano necessário

O que não faz nenhum bem à nossa sociedade é esta rotina de estados de emergência sucessivos, sem horizonte assumido. Façam lá o plano, com ou sem datas concretas, e coloquem-no à nossa apreciação.

1. Um plano com datas talvez seja ainda arriscado neste momento, concedo; mas um plano com prioridades para o desconfinamento seria um bom instrumento de trabalho para entregar alguma esperança às pessoas e às empresas. Dizer tão simplesmente isto: quando os especialistas de saúde, atendendo aos números, forem capazes de estabelecer consensos mínimos sobre datas, os decisores políticos – ou seja, os governantes, assumindo as suas responsabilidades, que é para isso que foram eleitos, entendem começar pelos sectores “x”, “y” e “z”.

Poderíamos, então, discutir essas prioridades, trocar ideias sobre se as escolas vêm antes dos restaurantes ou as artes performativas depois do desporto juvenil. Mas seria um princípio. O que não faz nenhum bem à nossa sociedade é esta rotina de estados de emergência sucessivos, sem horizonte assumido; a sobrevivência em estado selvagem; a desesperança instalada entre os portugueses com menos recursos e que sofrem para se confinar com a disciplina que agrada a quem vive sem problemas financeiros.

2. É o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, quem nos costuma dizer que somos “os melhores do mundo”. Normalmente, aborrece-me a conversa. O “melhor do mundo” nunca existe, é um ideal – mas isso agora também não interessa. O que interessa é que sejamos, tal como ele nos diz a propósito do azeite e do vinho que produzimos, do futebol que por cá se joga, dos autarcas que temos, das pessoas que somos, “os melhores do mundo” a desconfinar. Ou que julguemos sê-lo, não interessa. E para isso precisamos que os melhores políticos do mundo, que provavelmente serão os nossos, nos deem informações que saiam do círculo de baile entre a presidência, o Governo e o Parlamento de Ferro Rodrigues. Não é pedir muito.

3. Leio no “Público” que o relatório discutido ontem na Assembleia da República, assinado pelo ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, constatou que, numa fase inicial do período entre 16 e 30 de janeiro, “a população em geral não interiorizou a gravidade da situação vivida e a necessidade de cumprimento estrito das novas regras em vigor, razão pela qual o Governo teve de fazer duas alterações ao decreto do estado de emergência”, relacionadas com as aulas presenciais nas escolas e com as vendas ao postigo em estabelecimentos comerciais.

Admito que seja verdade.

Se em ditadura poderíamos sempre acusar o Governo, em voz baixa, de ter falhado porque não fez; em democracia é justo que entendamos, em voz alta, que falhamos porque todos não fazemos.

A questão é que não coloquemos as responsabilidades no mesmo plano. No país, cada cidadão normalmente pensa por si, pelos seus interesses, e raros são aqueles que conseguem colocar-se num plano geral de análise ao problema do coletivo. É um pequeno problema. Já o Governo, com mais informação e outras responsabilidades, que quis ter, não ser capaz de prever em tempo útil é outro grau de falha. Por estes dias, falar das duas coisas quase como sendo simétricas, não parece bem. Soa a desculpa.

Façam lá o plano, com ou sem datas concretas, e coloquem-no à nossa apreciação. É o mínimo, para uns e outros.

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