Depois de observar um conjunto de reacções nas redes sociais sobre a agressão militar dos EUA ao Estado da Venezuela, decidi reflectir acerca do efeito deste evento no sistema internacional, sobretudo o seu impacto nos países africanos que já estão a ser vítimas dessa postura imperialista dos EUA. De recordar o bombardeamento ao Estado da Nigéria, devido a um suposto ataque aos cristãos, e as sanções aplicadas a alguns dirigentes sul-africanos, pela suposta perseguição e morte da população branca.

Face a esta complexa conjuntura política internacional, quem opta por estabelecer uma leitura ou uma interpretação do comportamento dos EUA através de um quadro ideológico, assente na velha clivagem direita versus esquerda, ignora a lógica imperialista dos EUA, que se orienta, essencialmente, por um realismo político que implica, desde logo, a defesa dos seus interesses estratégicos. Assim, os EUA asseguram qualquer tipo de governo, desde que realize os seus interesses, independentemente da sua orientação ideológica ou natureza do regime político.

Pensamos, pois, que a estratégia dos EUA acabará por ser bastante eficiente no contexto africano devido às fragilidades dos Estados, resultado dos conflitos armados, elites fracas, instituições débeis e do fraco ou nenhum apoio aos regimes políticos, pela falta de legitimidade em alguns casos. Poderemos assistir, em breve, a uma substituição da forte presença chinesa pelos EUA em África, porquanto o modelo imperial chinês assenta, sobretudo, em empréstimos financeiros para obter apoio dos governos africanos, sem implicar, necessariamente, nenhum tipo de envolvimento militar ou defesa dos regimes.

É, por isso, que a manutenção dos interesses chineses na realidade africana dependerá da aliança militar com a Rússia, que conhece o teatro político africano, e, sobretudo, militarmente, como poucos países. Assim, a aliança sino-russa é a única solução política para a preservação dos interesses geoestratégicos das duas potências, contrapondo-se à estratégia imperial dos EUA.

Perante este jogo político e a reorganização dos interesses estratégicos das potências, à qual África não escapará, acaba por ser preocupante as reacções das elites africanas e dos jovens políticos, que comentam a política internacional através de trincheiras ideológicas e com uma ligeireza assustadora. Não compreendendo o lugar da História de África no mundo e como este lugar implicou sempre uma má distribuição de poder, sem atender ao campo ideológico ou à visão africana. Existirá direito ao anunciado futuro africano num mundo que começa a traçar, novamente, uma nova geopolítica imperialista?