O “polícia” Jorge Fonseca e os impunes

Mario Conde levou o seu aparente brilho para trás das grades, e ali morreu o ícone. Por cá, já sabemos, julgamentos e condenações, nada.

Quando, segundo o que vem na imprensa, António Mexia e Manuel Pinho tiveram 52 encontros por causa da EDP e tudo, alegadamente, para favorecer o BES e Ricardo Salgado (do qual foram empregados), e depois vemos Patrícia Mamona, Jorge Fonseca, Pedro Pichardo, Fernando Pimenta, entre tantos outros, a honrar Portugal, a fazer uma vida dura mas limpa, com esforço e sofrimento, sem nunca alcançarem um décimo dos rendimentos destes figurões atrás mencionados, compreendemos que o topo da pirâmide social devia estar invertida.

Salgado, Mexia, Zeinal, Vasconcellos, nunca mais acabava a lista se a continuasse, são estes os rostos que levam atrás de si pajens, media, alpinistas, sanguessugas e inúteis em busca de uma migalha de atenção e reconhecimento. Foram eles os monarcas entronizados por uma sociedade sem referências, como os líderes que tudo podiam.

Contudo, é desta gentalha que jorra toda a porcaria, todas as ignóbeis notícias que, quase diariamente, açoitam um País farto de sentir que as suas elites eram medíocres. Os outrora catalogados como génios, afinal, eram um limão azedo e sem sumo. Fruta podre, portanto.

Aqui ao lado, há muitos anos, houve uma geração que bebeu da cartilha de Mario Conde e das suas gravatas com elefantes de tromba levantada (sinal de boa sorte), enquanto os jornais o erigiam como arauto de uma nova Espanha: ambiciosa, moderna, ganhadora. Até ao dia em que o banqueiro caiu do seu pedestal e foi parar à prisão, como um homem normal que nada tinha de divino.

Mas essa é a enorme diferença, Conde levou o seu aparente brilho para trás das grades, morrendo ali o ícone. Por cá, já sabemos, julgamentos e condenações, nada. “Rien de rien”. Talvez porque em Portugal, como dizia o grande escritor uruguaio, Eduardo Galeano, “a justiça é como uma serpente, só morde os pés descalços”. Arrastam-se os processos anos e anos, é o reino dos poderosos impunes.

Por isso é que os nossos heróis têm de ser outros. Os que não têm máscaras, os que não se movimentam nos ambientes de um poder político e financeiro apodrecido, onde, felizmente, porque todas as regras têm excepções, ainda existem boas pessoas e bem preparadas. Os Jogos Olímpicos servem para contar histórias de superação, de esforço, trabalho e também glória.

O caso de Jorge Fonseca torna-se quase absurdo nesta terra de figurões. O judoca não quer ser administrador de empresas, sonha meramente ser polícia.

Não conheço as suas habilitações, mas todos os que andam por aí fardados são melhores do que ele? Será que Marcelo, Costa, Cabrita, mesmo o comandante nacional da PSP não compreendem que ter um campeão fardado a ir a escolas e universidades a contar a sua história de vida é uma enorme mais-valia enquanto operação de relações públicas da própria corporação?

Não pode o senhor Presidente da República, em vez de andar a ligar para jornais, exercer o seu magistério de influência e concretizar o sonho de um homem que já tanto deu a Portugal? É tempo de dar importância aos nossos heróis, porque os ídolos com pés de barro enojam os portugueses.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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