Portugal prepara-se para mais uma greve geral. Anunciada pela UGT e CGTP, é a primeira em 12 anos e não deixa de ser estranha. Sabemos que lidamos diariamente com pessoas e empresas boas e menos boas. O problema está no equilíbrio que é necessário ter para defender os direitos de ambas as partes, mas sobretudo promover o crescimento do país, que é, em última análise, a base para pagar melhores salários e atrair indústrias de maior valor acrescentado.
O anúncio da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa de se juntar a este protesto é, nesse sentido, bizarro. Uma empresa que tem procurado consenso e paz laboral, vê-se agora outra vez à mercê de sindicatos que parece não defenderem os trabalhadores, mas os partidos a que pertencem. Esta orquestra dirige os trabalhadores numa ou noutra direção, que não é a defesa dos seus direitos. É a sua utilização para fins políticos, e isso é muito mau.
O estranho foi, nos últimos 12 anos, não se ter assistido a múltiplas greves gerais dados os muitos problemas na saúde, educação e justiça. Não devemos só lutar pela subida dos salários, mas em nome do bem-estar da economia. E esse bem-estar deteriorou-se nos últimos 10 anos, sem que houvesse qualquer menção por parte dos sindicatos. É de questionar a sua verdadeira utilidade à sociedade.
Mas a administração pública também não prima pelo exemplo. O presidente da AIMA veio a público referir que a prioridade foi tratar os mais de 400 mil processos de imigrantes, deixando para último os requerentes da nacionalidade ao abrigo do investimento de 500.000 euros, os chamados Golden Visa. Ora, se eu entrar num hospital, vou ser atendido em último lugar só porque tenho mais dinheiro do que os outros em igualdade de circunstâncias? Não deveríamos primar pelo tratamento igual, ordem de chegada?
O que adianta cada processo Golden Visa pagar mais de seis mil euros em taxas se não puder ter um tratamento equitativo? Andam muitos pezinhos de lã em Portugal a tentar não criar ondas, com receio de críticas, mas elas sempre existirão.
Nas empresas também se passa o mesmo. Para não ferir suscetibilidades, muitas vezes os colaboradores mais novos têm uma progressão mais lenta porque estão dependentes do impacto que tal pode ter junto dos colegas com décadas de casa. Se dermos uma promoção a um, o colaborador com maior antiguidade também tem de ser aumentado.
Resumindo, o politicamente correto está presente de forma transversal na sociedade portuguesa. Precisamos de evoluir para uma sociedade baseada no mérito e criação de riqueza. É por isso que a diferença de produtividade dos Estados Unidos é abissal face aos europeus. Ali não se brinca em serviço, literalmente.



