O populismo e as democracias liberais

A situação a que chegámos na Europa tem responsáveis, os mesmos que agora manifestam queixume pelo agigantamento do populismo, os mesmos que durante décadas “geriram o sistema”, leia-se o centro político.

Como vários outros termos utilizados nas Relações Internacionais, a expressão populismo entrou na gíria, sendo empregue nas situações mais díspares. A proliferação não ajudou à clarificação do conceito. Para isso, terá também contribuído a falta de consenso na academia sobre o seu significado. Do nosso ponto de vista, o populismo não é uma ideologia. Acompanhamos Benjamin Moffitt, que considera o populismo, acima de tudo, “uma forma de competir pelo poder, uma forma de fazer política”, que se acentuou com a crise de 2008.

Subscrevemos o menor denominador comum relativamente ao que se designa por populismo: uma ação política que coloca de um lado o povo honesto e imaculado (os santos), e, do outro, a elite perversa e ruim que se alimenta do povo (o diabo). Antes de se fazerem julgamentos sobre o populismo, importa perceber porque é ganhou importância nas democracias liberais.

É um facto que nas sociedades ocidentais, segmentos cada vez maiores da população se sentem desprezados pelas elites, se deixaram de rever nas instituições, sentindo que elas não os representam. Essa falta de representatividade (e legitimidade) ficou clara, por exemplo, nas recentes eleições legislativas portuguesas, em que apenas 44% do universo de potenciais eleitores contribuiu para a eleição de deputados.

A desconfiança da população nos políticos e nas instituições reside, em parte, na natureza elitista das democracias liberais, que se tornaram anafadas e cheias de si mesmas, se afastaram progressivamente das preocupações das pessoas, não cumprem o que prometem e desencorajam a participação política das massas, limitando-a, se possível, aos atos eleitorais. Ao invés, a população quer mais democracia e mais participação. Largos segmentos da população deixaram de se rever no sistema partidário vigente, tornando-o mais fragmentado, volátil e instável.

Para se chegar aqui, contribuiu a falta de ética no exercício da política materializada em querelas entre grupos da elite política, que pouco dizem às pessoas, os escândalos, o lobbying, a lavagem de dinheiro, a política de portas giratórias, e a corrupção, esta última responsável pela profunda erosão das democracias. A estes aspetos junta-se a imigração, e o impacto económico da globalização responsável pelo aumento das desigualdades, levando as pessoas a olharem com muitas reservas as agendas cosmopolitas e globalizantes que lhes propõem. Os ditos populistas exploram as ansiedades e legítimas preocupações das populações, a que as democracias liberais deixaram de responder satisfatoriamente.

A situação a que chegámos na Europa tem responsáveis, os mesmos que agora manifestam queixume pelo agigantamento do populismo, os mesmos que durante décadas “geriram o sistema”, leia-se o centro político. Coloca-se, pois, uma interrogação incontornável. Serão a social-democracia e a democracia-cristã capazes de se reinventar e alterar o rumo dos acontecimentos? Em alternativa às reiteradas e continuadas lamentações sobre os malefícios do populismo, seria preferível uma autocrítica e a apresentação de soluções. Mas não há, contudo, evidências de que isso esteja a acontecer. Entretanto, o populismo continuará a crescer e a orquestra a tocar.

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