O populismo italiano na União Europeia

O confronto entre a UE e o governo italiano sobre o orçamento irá intensificar-se uma vez mais, especialmente se a recessão se mantiver, como é esperado, em 2019.

A economia italiana entrou pela terceira vez numa década em recessão técnica. Recorrendo a conceitos económicos, uma recessão técnica sucede quando uma economia regista dois trimestres consecutivos de recuo no Produto Interno Bruto (PIB). Depois de ter recuado 0,1% no terceiro trimestre em relação ao anterior, o PIB da Itália diminuiu em cadeia 0,2%, de acordo com a estimativa divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística Italiano (ISTAT).

Itália entrou em recessão técnica pela primeira vez desde 2013, o que obviamente é um mau sinal para a coligação governamental, formada pela Liga (Lega Nord) e pelo Movimento 5 Estrelas (M5S), uma vez que a economia está em declínio desde o trimestre em que o governo populista iniciou o seu mandato.

Os dados são particularmente preocupantes visto colocarem Itália como exceção no seio de um conjunto de países onde a tendência é bastante diferente. Mesmo tendo em conta que a taxa de crescimento médio do PIB na zona euro foi a mais lenta desde 2014, as economias dos outros Estados-membros estão, apesar de tudo, em expansão.

O Eurostat reportou que, no ano passado, a zona euro cresceu em média 1,8%, um resultado significativamente mais baixo que 2,3% em 2017, no entanto podemos ainda assim estabelecer um contraste entre a taxa de crescimento médio da zona euro e o caso italiano apresentado.

O ano de 2018 foi caraterizado por uma desaceleração económica em todo o continente. A Alemanha sofreu uma imprevisível queda nas vendas de carros (confiança económica do consumidor) e nas exportações que levou a uma contração económica. As dificuldades no setor automóvel alemão derivam principalmente de eventos não contínuos, como as mudanças nos padrões de emissões de carbono e têm uma forte probabilidade de serem ultrapassados brevemente, dada a solidez do setor e a estabilidade histórica da economia alemã.

Pelo contrário, as dificuldades económicas italianas têm origem em problemas estruturais sem uma solução previsível à vista. O confronto entre a UE e o governo italiano sobre o orçamento irá intensificar-se uma vez mais, especialmente se a recessão se mantiver, como é esperado, em 2019. Os objetivos de crescimento definidos pela coligação serão, pois, extremamente difíceis de alcançar e os gastos planeados pelo governo tornar-se-ão insustentáveis.

Não há nada de tranquilizador no facto de o governo italiano ter reagido à recessão económica culpando fatores externos. Esta narrativa ignora a instabilidade económica, a ansiedade social e a imprevisibilidade política que se fazem sentir em Itália desde o fim do primeiro semestre de 2018.

As dificuldades económicas poderão reduzir a confiança da população nas soluções demagógicas dos partidos populistas italianos, mas também podem servir de combustível à natureza radical destes movimentos, legitimando as suas pretensões.

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