O povo é quem mais ordena

Os populismos e os populistas estão em alta e dificilmente deixarão de continuar no poder se os políticos mais moderados e mais “democráticos” não souberem infletir o seu discurso e atuação.

O mundo está virado ao contrário. A democracia parece já não ser o que era e o cenário tende a agravar-se a cada dia que passa. Longe vão os tempos em que os resultados eleitorais ditavam, invariavelmente, uma alternância entre partidos ditos democráticos.

Cansados do politicamente correto, submersos em impostos que sustentem Estados obesos, desiludidos com as promessas repetidamente incumpridas, os cidadãos de muitos países começam a deixar-se seduzir por políticos e por partidos que fazem da contestação a sua mensagem, que defendem, em maior ou menor medida, políticas autoritárias, que desafiam os valores tradicionais, que fazem os povos acreditar que ainda é possível seguir um rumo diferente.

Com o auxílio das redes sociais, vários políticos, de direita ou de esquerda, têm conseguido fazer passar as suas ideias, assumindo, mesmo, nalguns casos uma governação assente numa ideologia perigosa, populista, defensora de princípios e de valores que julgávamos definitivamente atirados para os manuais de História.

Nos EUA, assistimos à subida ao poder de Donald Trump, que, numa espécie de passe de mágica, conseguiu inverter os resultados prometidos pelas sondagens, que de forma unânime apontavam Hillary Clinton como a vencedora das eleições presidenciais.

Defensor de ideias pouco democráticas, Trump apoiou-se no slogan “Make America great again” e advogou, entre outras, políticas anti-imigração, a construção de um muro a separar os Estados Unidos do México, a descida dos impostos, a eliminação do Obamacare. O seu mandato tem sido caracterizado por uma utilização maciça do Twitter, pela retirada de alguns dos principais acordos internacionais anteriormente assinados pelos EUA e por uma política externa errática.

No Reino Unido, os britânicos deixaram-se seduzir pelos aparentes benefícios do Brexit e referendaram a saída do país da União Europeia, algo que terá elevadíssimos custos não só para a população britânica, mas, também, para os seus aliados europeus, incapazes de negociarem um acordo de saída capaz de agradar a gregos e a troianos, reduzindo, desta forma, o impacto económico da saída do Reino Unido do projeto arquitetado por Schuman e Monnet.

Hoje, um novo referendo dificilmente redundaria em resultados semelhantes, uma vez que a esmagadora maioria dos britânicos já se aperceberam do erro em que embarcaram e das vãs promessas em que acreditaram.

Na Hungria e na Polónia, países considerados como case studies de sucesso de transição do comunismo para a democracia, temos, atualmente, regimes cada vez mais autoritários e menos democráticos, com Viktor Orbán e Jaroslaw Kaczynsky a personalizarem atitudes crescentemente totalitárias, alimentando o fanatismo e o ódio, defendendo políticas anti-imigração, a censura à imprensa livre e o condicionamento dos tribunais.

No Brasil, Jair Bolsonaro, candidato da direita radical, ganhou recentemente as eleições presidenciais recusando-se a participar em debates eleitorais e fazendo uma campanha assente na utilização das redes sociais, através das quais os brasileiros foram diariamente bombardeados com mensagens de condenação das políticas levadas a cabo pelo PT de Lula da Silva e Dilma Rousseff e de apoio às pretensões do capitão Bolsonaro.

Num país sempre manchado pela corrupção, com enormes desigualdades sociais, com uma criminalidade crescente e com uma economia no fio da navalha, em que o PT e os seus dirigentes não souberam merecer o voto de confiança que o povo lhes deu, deixando-se seduzir, também eles, pelo vírus da corrupção que tantas vezes condenaram, pareciam não restar dúvidas de que um candidato antissistema, capaz de prometer colocar o Brasil na ordem, teria todas as condições para assumir a presidência.

Mais do que eleger Bolsonaro, os brasileiros assinaram uma sentença de morte ao PT e aos seus dirigentes, votaram mais contra do que a favor, deixaram-se seduzir pelos ventos da mudança, cansados do arroz e feijão político em que o país tinha mergulhado.

A democracia é, assim, uma chatice, especialmente quando não produz os resultados eleitorais que os analistas e as elites parecem desejar. Os populismos e os populistas estão em alta e dificilmente deixarão de continuar no poder se os políticos mais moderados e mais “democráticos” não souberem infletir o seu discurso e essencialmente a sua atuação, preocupando-se mais com as populações do que com os seus interesses pessoais.

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