No mundo das startups, (quase) todos querem crescer o máximo possível, o mais rápido possível. Celebram-se rondas sucessivas de financiamento e conquistam-se clientes com promessas de preços irresistíveis (ou inexistentes). O que quase nunca se discute é quem, de facto, acaba por pagar esta fatura. O price dumping (vender abaixo do custo real) tornou-se uma estratégia comum no setor tecnológico e os impactos, embora invisíveis à primeira vista, são profundos e com implicações em toda a economia.

O dumping surge sobretudo em mercados winner-takes-all, onde a promessa de monopólio é demasiado aliciante. As empresas apostam tudo na captação de utilizadores para crescer depressa e conquistar uma quota de mercado crítica, relegando a rentabilidade para segundo plano. Exemplos como o da Uber mostram o padrão: entra nos mercados com preços abaixo do custo, ganha quota à força, esmaga a concorrência e, só então, impõe as suas próprias regras. No setor tecnológico, este fenómeno acaba por se intensificar porque o custo adicional de uma subscrição digital, por exemplo, é irrisório (ao contrário do que acontece com produtos físicos, em que cada venda implica custos reais de produção e logística).

Percebe-se, assim, como esta dinâmica pode rapidamente ultrapassar o limiar da concorrência saudável. Existe uma linha ténue entre concorrência e destruição de valor. A concorrência é positiva, uma vez que força as empresas a inovarem e a serem mais eficientes nos processos, reduzindo custos e beneficiando os consumidores. Mas, quando o preço praticado está consistentemente abaixo do custo, já estamos a entrar noutro território, onde não há sustentabilidade possível, nem criação de valor.

Para as próprias empresas, o dumping é a arte de “cair para a frente”. Obcecadas pelo crescimento fácil, alimentam-se de capital de risco, mascaram resultados negativos e geram instabilidade em equipas e fornecedores. Quando a torneira do financiamento fecha, a queda é inevitável. Vemos histórias de sucesso incríveis e fundadores com vidas fantásticas. Mas quantas empresas faliram? Quantas pessoas deixaram de receber salários à custa do “sucesso” de alguém? Negócios dependentes de dumping vivem com fim anunciado. Enquanto continuarmos a celebrar empresas que operam com prejuízo, estamos apenas a abrir caminho para futuros monopólios, o que só nos prejudica a todos.

À primeira vista, o price dumping só traz vantagens para o consumidor. Mas, quando o preço é sistematicamente inferior ao custo e não se está a competir de forma justa, há sempre o reverso da medalha. Os concorrentes são “expulsos” do mercado, porque não conseguem igualar ofertas insustentáveis, e os consumidores deixam de poder escolher, tornando-se reféns dos preços que as grandes empresas decidirem impor. Acredito que os consumidores não tenham consciência do que está por trás dos descontos sucessivos, os tais “custos invisíveis”. Poucos distinguem preço justo de preço subsidiado. E muito menos entendem que, ao optar pelo preço mais baixo, podem acabar dependentes de um monopólio ou de meia dúzia de fornecedores dominantes.

O price dumping é, no fundo, uma armadilha. Não enriquece o ecossistema; esgota-o. O caminho certo passa por criar valor verdadeiro na economia, garantindo que as pessoas paguem por aquilo que realmente valorizam. Porque quando as escolhas são ditadas só pelo preço baixo, a lógica de mercado deixa de funcionar e os efeitos negativos são inevitáveis. Quando uma empresa não depende de capital de risco, protege os próprios clientes. Se estes pagam pelo verdadeiro valor do serviço ou produto, contribuem para a estabilidade da empresa, ajudam a evitar a falência e previnem aumentos forçados e repentinos no futuro.

De modo geral, não se pede um Estado asfixiante. Mas, nesta área, é fundamental reforçar e aplicar as regras anti-dumping existentes, especialmente quando as empresas já atingem uma escala relevante. Educar o consumidor sobre o preço justo e os riscos do dumping é também essencial. Se queremos um ecossistema de inovação coeso, não basta celebrar unicórnios ou deslumbrar-nos com manchetes de crescimento. É preciso apelar à valorização de práticas responsáveis e repensar o que significa crescer. É preciso optar pela sustentabilidade.