O declínio da investigação científica genuína, movida pela curiosidade e pela vontade de compreender o mundo, é um fenómeno subtil, mas persistente nas últimas décadas na Europa.

A sua origem não está na falta de talento, nem na ausência de problemas científicos relevantes, mas sim na crescente hegemonia de um modelo de quantificação importado sdos Estados Unidos, que transformou a ciência num sistema de métricas, rankings e produtividade mensurável.

O que antes era uma atividade intelectual orientada pela descoberta tornou‑se uma indústria de produção de artigos, onde o valor do investigador é reduzido ao número de publicações e ao impacto calculado por algoritmos de citação. Esta lógica, que se apresenta como objetiva e meritocrática, tem efeitos profundos e corrosivos sobre a própria essência da investigação. Está a matar a investigação científica.

A ideia de que tudo pode — e deve — ser medido é sedutora. Dá uma sensação de controlo, de transparência, de justiça.

Contudo, aplicada à ciência, esta obsessão pela quantificação cria distorções graves.

O investigador deixa de ser avaliado pela qualidade intrínseca do seu pensamento, pela originalidade das suas perguntas ou pela profundidade das suas contribuições.

Passa a ser avaliado por indicadores numéricos: quantos artigos publicou, em que revistas, com que fator de impacto, quantas citações acumulou. As revistas, por sua vez, também são classificadas e hierarquizadas, criando um ecossistema onde o valor científico é substituído por prestígio editorial, que muitas vezes é fictício.

O conhecimento transforma‑se numa espécie de moeda, e o investigador num contabilista de resultados.

Este sistema gera comportamentos previsíveis. Em vez de se dedicarem a problemas difíceis, arriscados ou de longo prazo, muitos investigadores optam por estratégias que maximizam a produção de artigos. Fragmentam resultados em múltiplas publicações, repetem variações mínimas de estudos anteriores, seguem modas científicas que garantem maior probabilidade de aceitação. A criatividade, que exige tempo e liberdade, é sacrificada em nome da produtividade.

O próprio Peter Higgs, laureado com o Nobel pela descoberta teórica do bosão que leva o seu nome, afirmou que, se tivesse de trabalhar hoje, provavelmente seria despedido: não teria tempo para publicar o suficiente, porque o seu trabalho exigia reflexão profunda, não produção contínua de artigos. Esta confissão é reveladora do absurdo a que chegámos.

A situação agrava‑se quando se considera que o acesso à publicação não é tão meritocrático quanto o sistema pretende fazer crer. Apesar da retórica da objetividade, a realidade é que muitas revistas funcionam com redes informais de influência, favoritismos e clientelismo académico.

A chamada “old boy network” continua viva: investigadores bem posicionados, pertencentes a certos círculos, instituições ou grupos de poder, têm acesso privilegiado a revisores, editores e oportunidades.

A opacidade do processo editorial — frequentemente anónimo, lento e arbitrário — reforça estas desigualdades.

Assim, o sistema de rankings e métricas, que supostamente deveria democratizar e clarificar o valor científico, acaba por perpetuar hierarquias antigas e interesses obscuros.

Outro problema estrutural é que grande parte da atividade de investigação contemporânea é consumida por tarefas que nada têm a ver com ciência.

Reuniões intermináveis, relatórios burocráticos, candidaturas a financiamento, avaliações internas, comissões, auditorias, formulários de conformidade, plataformas administrativas — tudo isto ocupa uma fatia crescente do tempo dos investigadores.

A investigação séria, aquela que exige concentração prolongada, leitura profunda, experimentação cuidadosa e reflexão conceptual, é empurrada para os intervalos, para as noites, para os fins‑de‑semana. O investigador transforma‑se num funcionário administrativo, treinado para navegar labirintos institucionais e produzir documentos, não conhecimento.

Este ambiente favorece um tipo particular de profissional: o gestor académico, o especialista em métricas, o estratega de carreira.

Pessoas que dominam a linguagem dos relatórios, que sabem otimizar indicadores, que constroem redes de influência e que prosperam na lógica da quantificação.

Não são necessariamente maus investigadores — mas o sistema recompensa mais a sua capacidade de jogar o jogo do que a sua capacidade de pensar de forma original.

A ciência, assim, perde vitalidade. As universidades tornam‑se centros de produção burocrática, onde a aparência de produtividade substitui a substância do conhecimento.

As consequências deste modelo perverso não se limitam ao mundo académico.

A inovação, que depende de investigação profunda e arriscada, sofre.

Problemas complexos — como alterações climáticas, novas doenças, desafios tecnológicos ou questões sociais emergentes — exigem pensamento crítico, interdisciplinaridade e tempo. Mas o sistema atual privilegia resultados rápidos, publicáveis e quantificáveis.

A economia, que depende de avanços científicos reais, acaba por ressentir‑se. Países que adotam cegamente este modelo tornam‑se reprodutores de conhecimento superficial, em vez de criadores de conhecimento transformador. Gastam uma imensidão em Investigação e Desenvolvimento, sem qualquer resultado palpável.

A investigação torna‑se um processo mecânico, e o investigador uma peça numa engrenagem industrial.

Recuperar a verdadeira investigação científica implica repensar profundamente o modo como avaliamos, financiamos e organizamos a ciência.

Implica devolver tempo aos investigadores, valorizar a originalidade, aceitar o risco, permitir o fracasso, promover a diversidade de abordagens e resistir à tentação de transformar tudo em rankings.

A ciência nasceu da inquietação humana, não de métricas. Se quisermos que continue a ser uma força de progresso, precisamos de libertá‑la da camisa‑de‑força da quantificação absurda que hoje a aprisiona. E isso exige coragem institucional, visão política e uma mudança cultural profunda.

Caso contrário, continuaremos a produzir artigos — muitos artigos — mas cada vez menos conhecimento.