O que esperar da líder europeia “menos popular de sempre”?

O discurso inclusivo e moralmente incisivo serviu não só para garantir que não haverá percalços nas próximas sessões do PE, como também para consensualizar com o conselho que a nomeou.

No passado dia 16 confirmou-se a eleição mais polémica de um presidente da Comissão Europeia desde que há registo ao ter sido eleita pelo parlamento Ursula von der Leyen com mais votos contra (327) do que qualquer outro presidente eleito, ultrapassando inclusive Durão Barroso (251).

Este cargo, considerado por muitos o mais importante a nível europeu, reparte as pastas políticas por uma equipa composta por emissários dos 28 países que têm como principais funções a apresentação de novas leis, a garantia de aplicação da legislação conjuntamente com o Tribunal de Justiça europeu, a distribuição de fundos comunitários e a gestão das políticas europeias.

O processo de eleição de um presidente da Comissão implica que o candidato seja, primeiramente, nomeado pelo Conselho Europeu e, de seguida, aprovado com maioria no Parlamento Europeu (PE). Contudo, na eleição de Jean-Claude Juncker, em 2014, o PE exigia, de forma relativamente consensual, que o candidato ao lugar fosse líder de uma das famílias partidárias com mais expressão nesse mesmo parlamento, por considerar ideologicamente que o spitzenkandidat eleito deve ser, em última instância, uma escolha dos europeus.

Tal não aconteceu desta vez quando o líder do PE, Frans Timmermans, não foi aprovado como possível candidato graças a uma minoria de bloqueio levada a cabo pelos países de leste, devido ao rigor que o centrista de esquerda impõe no cumprimento das normas europeias por todos os Estados-membros. Com pouco espaço de negociação o nome mais consensual passou a ler-se em alemão.

Ursula von der Leyen, ex-ministra da defesa alemã, tida por muitos como a mais provável sucessora de Angela Merkel, prepara-se para entrar em funções no dia 1 de Novembro.  Na declaração de abertura da sessão plenária do PE, deixou claras as metas que se propõe alcançar na sua legislatura e que têm aberto fissuras na comunidade europeia.

De um modo geral, o discurso inclusivo e moralmente incisivo serviu não só para garantir que não haverá percalços nas próximas sessões do PE, como também para consensualizar com o conselho que a nomeou. Apesar da primeira escolha de António Costa ter sido Timmermans, os eurodeputados portugueses do PS, PSD e CDS ficaram satisfeitos o suficiente com a segunda opção para votarem favoravelmente.

As fortes convicções pró-europeias, a prioridade que os temas das alterações climáticas terão na sua agenda e a adoção de uma estratégia tolerante face aos britânicos relativamente à data do Brexit foram fatores antecipados nos mercados financeiros aquando da sua aprovação no PE, pelo facto dos chefes de estado que a nomearam deterem maiorias parlamentares europeias. Por outro lado, o anúncio de retoma de negociações entre a China e os Estados Unidos sobre o tema das tarifas ajudaram a ofuscar a sensibilidade dos maiores índices bolsistas europeus a estes recentes desenvolvimentos

Importa questionar se haverá um forte contraste entre a futura e a presente legislatura dado pelas ameaças do fim daquele que tem sido o mais longo ciclo de expansão, patentes na deterioração de indicadores de sentimento económico como o das transações comerciais a nível mundial, que têm vindo a retrair-se, as taxas de emprego que se aproximam dos seus valores potenciais e o estado pessimista em que se situam as grandes indústrias das maiores economias mundiais.

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