O que falta para internacionalizar as universidades portuguesas?

Internacionalizar é mais do que esperar que venham estudantes, e de vez em quando alguns professores, de Erasmus para Portugal graças à nossa maravilhosa geografia.

A qualidade do ensino superior em Portugal é excelente. Segue metodologias atuais, rigorosas, exigentes, e, em alguns cursos, muitíssimo inovadoras, na linha do que refere Jean Tirole numa entrevista recente a um jornal português. Os nossos licenciados e mestres “dão cartas” quando somam no estrangeiro um grau adicional ao seu CV académico.

Ou seja, quando chegam a uma universidade com evidente renome internacional, são excelentes alunos, ganham prémios, dão que falar. Os nossos investigadores publicam (ainda que com um longo caminho a percorrer) nas melhores revistas internacionais.

Então, o que falta às universidades portuguesas para saltarem nos rankings internacionais? Entre outros, há dois fatores importantes: um, não totalmente exógeno, mas muito dependente do contexto económico e do acesso dos nossos licenciados ao mercado de trabalho; outro, trabalhoso para as universidades, mas exequível desde que haja vontade. Internacionalizar. É isso. Apostar em força na internacionalização no ensino superior português.

Internacionalizar é mais do que esperar que venham estudantes, e de vez em quando alguns professores, de Erasmus para Portugal graças à nossa maravilhosa geografia. Internacionalizar verdadeiramente é:

– Alargar o âmbito de submissão das universidades portuguesas, ou das suas faculdades e institutos, aos processos internacionais de certificação de ensino superior consoante o ramo de ensino em que se destacam; divulgar a qualidade académica e profissionalizante dos nossos cursos através dos múltiplos processos de acreditação internacionais existentes;

– Promover nos docentes universitários portugueses uma cultura de internacionalização. Internacionalizar não é só “dar disciplinas em inglês”. Há disciplinas que seguem diferente bibliografia, ou modelo, ou código ou perspetiva crítica, mas são adequadas à mesma área científica. No processo de atribuição de equivalências é de relevar o conjunto de competências atribuídas ao aluno ainda que a disciplina seja “muito pior que a minha” pois não fala disto, ou não refere o autor y, ou não inclui o artigo z na bibliografia, ou segue outra legislação, etc.

Neste ponto, o papel das universidades certificadas é fundamental para garantir que os nossos peers no estrangeiro seguem padrões que nos permitem assegurar a qualidade da equivalência. Creio até que, com a burocracia associada ao processo de equivalências disciplina a disciplina, se poderia pensar numa codificação ao nível europeu (pelo menos) que aliviasse bem o processo, à semelhança do que foi acontecendo com a uniformização de créditos, os denominados ECTS;

– Alinhar o calendário de acesso ao ensino superior com o europeu; conhecer boas práticas e imitar: como é possível numa sociedade tão tecnológica só conhecer os resultados do acesso ao ensino superior no dia 10 de setembro?! Que estímulo se dá ao estudante migrante se tem que organizar a sua vida “em cima” do início das aulas? Como se concorre com outras universidades que dão resposta meses antes?

– Promover nas estruturas administrativas das universidades portuguesas uma cultura de internacionalização; seguir padrões internacionais rigorosos, mas simples, de apresentação e defesa “à distância” de teses de mestrado e doutoramento com recurso a tecnologia; simplificar processos de atribuição de temas, design de investigação, entrega de teses, orientações, arguições, presidências de júri, atribuição de certificados, etc… que nada disso cause ruído a um estrangeiro que queira vir para Portugal fazer o seu mestrado ou doutoramento.

Neste ponto é necessária a contribuição do legislador português; a legislação nacional sobre ensino superior precisa de muito, muito pragmatismo! Que oportunidade se perdeu com a recente revisão de agosto deste ano…

– Estar presente nas feiras internacionais de ensino superior, aproveitar essas feiras para promover double degrees, parcerias de Erasmus, parcerias de teses de mestrado ou doutoramento e de investigação (mais uma vez a importância da certificação internacional…) ou simples “trocas de disciplinas” estilo summer schools, abrangendo docentes e alunos;

– Otimizar o aproveitamento de fundos europeus à investigação que promovam a apresentação de seminários de professores portugueses em universidades europeias e vice-versa; promover a cultura de “ir e convidar” nos docentes portugueses, ou seja, conviver com frequência com universidades lá fora; participar em redes e centros de investigação internacionais;

– Através da promoção de parcerias e da divulgação em redes e plataformas internacionais de emprego e estágio, promover nas empresas e outras entidades no estrangeiro o recrutamento de estudantes portugueses para estágios curriculares; a par, passar aos nossos alunos as soft skills e boas práticas internacionais adequadas à otimização da construção de CV e apresentação em entrevistas (que se abandone de vez o infeliz modelo de CV da UE).

A internacionalização do ensino superior português é uma questão de sobrevivência, não é uma moda. O mercado de trabalho dos nossos licenciados é o mundo. E, por outro lado, é o mundo o mercado de estudantes para as nossas universidades.

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