O que não vai mudar em 2018

Donald Trump continuará a deliberadamente confundir o tempo que se faz sentir com a questão climática, tentando fazer um argumento que singre junto de um público mal informado, usando para tal a última vaga de frio nos EUA.

Se é bem verdade que Luís de Camões imortalizou o verso “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, isto não quer dizer que a transição do ano civil signifique verdadeira mudança. Para nós tornou-se simpático festejar a chegada do Novo Ano e simbolicamente deitar fora aquilo que de mau o velho ano trouxe. No entanto e como Quino colocou na boca da sua personagem Mafalda: não é o novo ano que tem de ser diferente, somos nós.

Vejamos o que não mudará só porque 2018 chegou.

Donald Trump continuará a deliberadamente confundir o tempo que se faz sentir com a questão climática, tentando fazer um argumento que singre junto de um público mal informado, usando para tal a última vaga de frio nos EUA. O seu jogo discursivo para as camadas mais excluídas e mal informadas continuará  a dar os seus frutos também no próximo ano. Se resistiu a 2017, mesmo que venha uma destituição oficial, esta terá um caminho longo e tortuoso. Na política externa, em que fomenta vários focos regionais de agitação, continuará a rejeitar a vocação de intervenção global dos EUA num contexto de consenso internacional. No Médio Oriente desenvolve uma política de confrontação com um certo tipo de opositores internacionais, na Coreia do Norte busca outro. Através de um contexto regional afronta a Rússia e do outro a China, mas sem confrontar diretamente os países com os quais está em jogo.

A República Popular da China manterá o seu rumo, bem delineado interna e externamente. Procurará ao nível interno progredir na construção de um Estado uno e mais coeso. Macau, Hong Kong e, noutra dimensão, Taiwan fazem parte deste projeto de continuidade. Entretanto e recorrendo a negociações bilaterais e usando uma boa parte do seu soft power, mantem a sua ideia de uma Rota da Seda multíplice, com relações cada vez mais estreitas com a América Latina. A posição internacional consensual de Xi Jinping e a sua participação nos fora internacionais trazem-lhe o reconhecimento dos vários quadrantes políticos e países. Não se vislumbram pois grandes alterações na política chinesa.

Pela Europa, o Brexit e a questão da Catalunha permanecem como os maiores desafios. Apesar de o funcionamento democrático das instituições terem ditado estas alterações no ano passado, a verdade é que o seu futuro depende das negociações no presente. São duas questões políticas de profunda importância para o futuro da Europa que não terão retorno para uma situação igual à anterior. Seria muito bom que os poderes políticos europeus o entendessem desta forma.

Em Angola e apesar da mudança intensa nos cargos públicos e na declaração de combate à corrupção, há apenas um aspeto que parece não mudar: a relação com Portugal. Angola continua a preferir outros parceiros a Portugal e a recebê-los enquanto adia mais entendimentos com este histórico parceiro. É que, apesar da luta contra a corrupção, ainda incomoda tratar de alguns destes casos fora do seu país, como revela a situação em torno do caso de Manuel Vicente. Sendo João Lourenço a personalidade da transição, a verdade é que o meio envolvente não mudou e os problemas económicos e sociais de Angola não sofrerão grandes alterações a curto prazo.

O que pode então mudar? Apenas aquilo em que se force a mudança, não deixando esta tarefa apenas nas mãos de políticos e elites financeira. É da exigência da opinião pública que poderão vir as maiores mudanças e esta ainda continua a ser a ferramenta da sociedade civil.

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