O que o prédio Coutinho nos diz sobre o país

O que mais espanta na longa saga do prédio Coutinho não é o facto de o Estado ter decidido expropriar um edifício meramente por razões estéticas.

O que mais espanta na longa saga do prédio Coutinho não é o facto de o Estado ter decidido expropriar um edifício meramente por razões estéticas. Nem é, tão pouco, a resistência dos moradores ao longo de 20 anos, ou a violência inusitada (e ilegal) de que foram alvo nas últimas semanas, quando lhes cortaram a luz, o gás e a água, numa evidente demonstração do “bullying imobiliário” que a lei passou a proibir quando os alvos são arrendatários. O que mais espanta é sobretudo a indiferença com que a maioria dos portugueses encara o assunto.

Espanta, mas não devia, pois vivemos num país onde o despejo de um inquilino que não paga a renda provoca mais indignação coletiva do que a expropriação das casas de cem famílias, pelo facto de estarem situadas num edifício considerado feio. Vivemos, pois, num país onde o Estado se considera no direito de se apropriar da nossa casa porque esta fica mal na paisagem. Que os tribunais reconheçam razão ao Estado, entendendo que existe um superior interesse público que se sobrepõe aos direitos destes proprietários, é mais um sintoma do nosso atraso.

Não é com esta mentalidade de completo desprezo por quem cria riqueza, poupa e investe que faremos o país avançar no bom sentido.

No fim de contas, o azar dos proprietários do prédio Coutinho está em serem considerados gente “rica”, num país onde esta classificação é utilizada para descrever quem ganha 1.200 euros por mês. Defendê-los não dá votos, nem alimenta populismos. Afinal, não são pobres, compraram as casas com o seu dinheiro e não têm um senhorio a quem possam chamar especulador. Esperavam o quê? Uma selfie com Marcelo?

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