O racional das escolhas

Por muito que cada um de nós tenha uma opinião forte sobre o que fazer, o confinamento só resulta se fizermos o que nos dizem para fazer. E, neste processo, os media têm um papel fundamental a desempenhar.

A dificuldade de decidir o nível ótimo de confinamento é que o problema de otimização é multidimensional e intertemporal.

Multidimensional porque se pretende controlar a pandemia minimizando os efeitos nefastos na economia, na saúde física e psíquica das populações, na qualidade da educação dos nossos estudantes. Intemporal porque, sendo óbvio que o foco de hoje tem que ser na luta à doença, esta luta tem que se fazer garantindo que temos país amanhã.

Estas dificuldades exigem que, mais do que nunca, as decisões sejam baseadas em informação e conhecimento.

É de enorme importância que a ciência estude as várias facetas deste problema e providencie o conhecimento necessário para que as decisões dos governantes sejam racionais e justificadas. Os estudos feitos devem ser divulgados para que a população em geral possa compreender que muitas das decisões não são arbitrárias e que o muito português “eu acho que” não é o melhor caminho.

Mais, por muito que cada um de nós tenha uma opinião forte sobre o que fazer, o confinamento só resulta se, independentemente das nossas certezas, fizermos o que nos dizem para fazer.

Os media têm neste processo um papel fundamental. Cabe-lhes fazerem uma divulgação séria dos resultados destes trabalhos e terem a atitude pedagógica de passarem a informação de forma objetiva sem o foco no alarme e nos grandes títulos “à Correio da Manhã”.

Gostava de chamar a atenção para dois destes trabalhos, e para a sua divulgação, cuja importância para as decisões a tomar nesta terceira vaga são extremamente relevantes.

No “Público” de dia 15 de janeiro, foram apresentadas sumariamente as conclusões de um estudo levado a cabo pela consultora PSE, que quantifica as medidas de confinamento quanto à sua eficácia no combate à pandemia e o respetivo efeito na contração da economia.

Perante estas duas dimensões concluem que as medidas a tomar são aquelas que tendo um maior efeito no  afetam o menos possível a economia. Das medidas avaliadas, quatro têm grande impacto sanitário e relativamente pouco impacto económico: as aulas online, a diminuição de ocupação dos transportes públicos, a segmentação dos horários de compras por faixas etárias e a obrigatoriedade do teletrabalho.

Um segundo trabalho divulgado, entre outros, pelo “Wall Street Journal” de 6 de abril de 2020, consiste num artigo científico escrito por académicos do MIT com o título “Pandemics Depress the Economy, Public Health Interventions Do Not: Evidence from the 1918 Flu”.

O artigo analisa diferentes escolhas de intervenção de cidades norte-americanas assoladas pela gripe espanhola, para perceber o impacto económico das decisões diferenciadas, concluindo que quanto mais rápido e profundo o confinamento, e consequentemente o controlo da doença, mais célere e robusta a recuperação económica. O artigo mostra que a ideia de existir uma escolha entre confinamento e economia não é necessariamente verdadeira.

O peso que se dá a cada dimensão será necessariamente político, e depende de muitos fatores internos e externos, nomeadamente da dinâmica que se verifique quer na pandemia quer na economia. Mas deve ser, a cada passo, suportado pela ciência e pelo conhecimento e explicado a todos nós!

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