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O renascimento do Louvre afinal é uma quimera?

Emmanuel Macron queria ficar para a história como aquele que abençoou o “renascimento” do Museu do Louvre. Ir mais longe que Miterrand e a ‘sua’ Pirâmide. Más decisões, um assalto bem-sucedido e problemas estruturais no edifício poderão atirar o ambicioso plano às águas do Sena.
31 Dezembro 2025, 16h20

A história da residência dos reis franceses transformada em museu, ou melhor, no colosso chamado Louvre, que abriu as suas portas ao público em plena Revolução, em 1793, foi pacífica. Séculos depois, a primeira grande intervenção no museu desalojou o ministério das Finanças francês e viu nascer a Pirâmide, um projeto do arquiteto sino-americano Ieoh Ming Pei, inaugurada em 1988, na presidência de François Mitterrand, na praça central, a Cour Napoléon, que funciona como entrada principal.

Volvidos 37 anos, a auspiciosa Pirâmide é a testemunha silenciosa das multidões que enchem um museu concebido para 4 milhões de visitantes por ano e que hoje é um um dos mais visitados do mundo. O impacto não poderia ser leve e inofensivo. Soaram os alarmes e, em janeiro de 2025, a diretora do museu, Laurence des Cars, expôs estas preocupações numa carta ao Ministério da Cultura, alertando para a necessidade urgente de obras no edifício, cujo núcleo tem 800 anos. Segundo des Cars, serviços essenciais para os visitantes, como alimentação, casas de banho e sinalização, degradaram-se face à afluência anual de mais de 8 milhões de pessoas — o dobro de décadas anteriores, segundo o “Financial Times”.

Emmanuel Macron anunciou então uma reforma no colossal Louvre. Uma nova entrada e um espaço autónomo para a obra-prima de Leonardo da Vinci. 1,15 mil milhões de euros. Em dezembro de 2025, a ambiciosa intervenção prometia cair por terra. Uma greve dos trabalhadores por razões salariais e falta de pessoal encerrou um ano sombrio para o maior e mais visitado museu do mundo, após o espetacular roubo das joias da coroa francesa em outubro.

Fim das más notícias? Nem por isso. O plano anunciado de 1,15 mil milhões dependerá grandemente dos recursos próprios do Louvre e não dos contribuintes. Um pacote que inclui 300 milhões do contrato de licenciamento com o Louvre Abu Dhabi, mas falta ainda arranjar o remanescente. Até porque o financiamento anual por parte dos mecenas habituais não chegou sequer a 8 milhões de euros em 2024. Depois de um 2025 difícil, as perspetivas para 2026 parecem igualmente desafiantes.

A auditoria do Estado apontou o dedo a gastos não prioritários e as vozes críticas subiram de tom contra os planos liderados por Macron. O investimento em obras de arte foi considerado excessivo e o montante aplicado em segurança insuficiente. Do orçamento previsto, 83 milhões de euros, foram gastos apenas 3 milhões em melhorias na área da segurança – entre 2018 e 2024.

O apelo para redirecionar o financiamento para a manutenção básica do edifício ganhou novo elã após uma fuga de água, em novembro, na ala egípcia, ter danificado diversos manuscritos e obras académicas, a somar ao encerramento de outras galerias do museu devido às variações de temperatura que colocam em risco obras de arte.

O projeto Nouvelle Renaissance, que Macron ambicionava para o Louvre – sinónimo de legado cultural do seu consulado, à imagem do que aconteceu com a Pirâmide de Meng Pei, que ficou indelevelmente associada ao falecido presidente francês François Mitterrand –, apresenta cada vez mais fissuras. Os apelos dos sindicatos dos trabalhadores ao investimento em “projetos inteligentes” fizeram-se ouvir em dezembro na imprensa e nos cartazes exibidos por dezenas de trabalhadores, incluindo uma réplica da obra A Balsa da Medusa, de Géricault, criticando as políticas “naufragadas” do Louvre.

A greve foi suspensa ao fim de quatro dias, mas os sindicatos declararam que irão reunir novamente em janeiro para decidir os próximos passos. Não sem antes terem condenado a decisão de aumentar o preço dos bilhetes para cidadãos não europeus de 22 para 32 euros a partir de janeiro, uma medida que, a avançar, tornará o Louvre mais caro do que o Metropolitan Museum de Nova Iorque. Uma medida que os sindicatos classificam de “antirrepublicana”.

A pressão estende-se à tutela, claro. A ministra da Cultura, Rachida Dati, recrutou Philippe Jost, o alto funcionário público que supervisionou a reconstrução da Notre-Dame para “reorganizar profundamente o Louvre”, declarou, sem divulgar detalhes. O que se sabe? Que Jost irá apresentar, em fevereiro, um relatório sobre as falhas de segurança e os principais desafios que o museu enfrenta.

Se 2025 foi um ano particularmente conturbado, 2026 não augura tréguas a ninguém. Muito menos a Laurence des Cars, cujo mandato termina em setembro de 2026 e que a ministra Dati “segurou” na direção do Louvre após o celebérrimo roubo das joias da coroa. Na praça pública, ouvem-se cada vez mais apelos para que a (ainda) diretora apresente a sua demissão.


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