O risco da desinformação online

Devemos ser nós, consumidores de informação, a ter cautelas com o que nos é apresentado não prescindindo de proativamente procurar informação?

Caro leitor, se é uma daquelas pessoas que lê notícias na edição impressa do jornal é bom que saiba que é uma espécie em vias de extinção. Um estudo realizado pela Reuters em 26 países de todo o mundo (Portugal incluído) indica que para os diversos segmentos etários entre os 18 e os 44 anos a principal fonte de informação é o canal online e, neste, crescentemente, as redes sociais.

Não é novidade que a massificação do acesso à Internet tem contribuído para a universalização do acesso a informação. No entanto, a questão que cada vez mais se coloca é se o caminho que tem sido seguido é necessariamente positivo. A pergunta pode parecer estranha. Afinal, mais informação sempre foi vista como sinónimo de melhor qualificação da sociedade, melhor cidadania e até de uma melhor democracia. A verdade, porém, é que o “mais informação” que a Internet proporciona não se traduz necessariamente em “melhor informação” e, por vezes, nem mesmo em informação com o mínimo de fidedignidade.

O consumo de notícias e de opinião online é, como grande parte dos conteúdos a que acedemos na net, crescentemente personalizado. Os nossos hábitos na web são escrutinados e os nossos perfis traçados por algoritmos com o objetivo de que nos sejam apresentadas ou recomendadas apenas as coisas de que gostamos. O fenómeno começou por ser mais visível na publicidade online. Recebemos anúncios relacionados com o que pesquisamos no Google ou com as conversas que temos nas redes sociais. A questão é que o mesmo padrão está a chegar à informação.

Os designados social media, onde consumimos notícias, utilizam algoritmos de recomendação que sabem o que gostamos de ler e nos mostram as notícias e a opinião que nos agradam. Embora se crie uma aparente eficiência que à primeira vista até podemos apreciar, os riscos são óbvios.

Por um lado, a possibilidade de vivermos numa bolha de notícias e de opinião, onde não entrámos voluntária ou conscientemente, e que não é necessariamente representativa e plural. Por outro lado, o risco de a nossa opinião poder ser manipulada por quem escolhe as notícias que lemos ou por quem, ilegitimamente, sabe usar os algoritmos para influenciar as notícias (verdadeiras ou falsas) que nos chegam. Aquilo que os norte-americanos acusam os russos de terem feito nas eleições presidenciais de 2016 através das redes sociais é um claro exemplo do potencial do que está aqui em causa.

A questão é séria e merece reflexão. Como podemos tirar partido da tecnologia, eliminando os riscos que esta também coloca? Devemos ser nós, consumidores de informação, a ter cautelas com o que nos é apresentado não prescindindo de proativamente procurar informação? Deve deixar-se nas mãos destas plataformas de social media a iniciativa da autorregulação com vista a mitigar os riscos dos algoritmos e da manipulação de informação? Ou devem estas entidades, que têm o poder de influenciar a informação a que acedemos, ser reguladas e sujeitas a obrigações como as que impendem sobre a imprensa em geral?

A procissão ainda vai no adro e o debate mal começou. Mas a importância do mesmo é extrema e dele dependerá a qualidade futura da nossa cidadania e democracia.

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