O “rufar dos tambores” no Mar do Sul da China

O primeiro-ministro de Singapura, Lee Hsien Loong, defendeu esta semana que a China e os EUA têm de aprender a cooperar, sob pena de provocarem uma catástrofe mundial com consequências inimagináveis.

Em Portugal tem passado relativamente despercebido o agudizar das tensões entre os Estados Unidos (EUA) e a China, nas águas em volta de Taiwan, com a possibilidade de Pequim recorrer à força para conquistar a antiga Formosa a ser levada cada vez mais a sério.

A retórica utilizada pelas duas partes é cada vez mais inflamada e está a ter lugar uma impressionante corrida às armas que envolve também países como o Japão, a França e o Reino Unido, que esta semana enviou uma poderosa armada para a Ásia de modo a provar que, ao contrário do que dizem os críticos, a “Global Britain” é mais do que a fantasia imperial de alguns ex-pupilos de Harrow e Eton.

Aquilo a que estamos a assistir entre os EUA e a China é o que costuma suceder quando uma potência hegemónica se vê ameaçada por um concorrente desejoso de afirmar o seu poder crescente.

Ao longo da História, as potências hegemónicas raramente aceitaram perder essa posição sem antes a tentarem manter pela força das armas. Tucídides conta o que aconteceu quando o poder crescente de Atenas passou a ameaçar a supremacia militar de Esparta. Situação idêntica deu-se quando a Alemanha do kaiser começou a construir uma marinha de guerra para rivalizar com a Royal Navy.

Tanto num caso como no outro, a competição crescente deu origem a conflitos que duraram gerações e que provocaram perdas devastadoras para os envolvidos, por vezes em benefício de terceiros. Poucos anos depois de sair vencedora da longa e violenta Guerra do Peloponeso, Esparta perdeu a hegemonia para a rival Tebas e depois para a Macedónia de Filipe II e Alexandre, o Grande. Ao passo que a Grã-Bretanha, esgotada por duas guerras mundiais, foi forçada a entregar aos EUA o domínio dos mares e da economia global.

O mesmo desfecho destrutivo e violento poderá acontecer se a crescente tensão entre as duas superpotências do nosso tempo conduzir a uma guerra, um cenário que é admitido por analistas como Henry Kissinger (que compara os tempos atuais ao mundo pré-1914 e defende um entendimento entre o Ocidente e a China para a criação de uma nova ordem mundial) ou o primeiro-ministro de Singapura, Lee Hsien Loong, que esta semana defendeu que a China e os EUA têm de aprender a cooperar, sob pena de provocarem uma catástrofe mundial com consequências inimagináveis.

Um dos aspetos mais perigosos nesta questão é a crença de que a civilização pode sobreviver a uma guerra de grandes dimensões entre duas potências nucleares. Essa ilusão perigosa é partilhada por muitas pessoas que ocupam lugares de decisão política e militar.

E a este respeito a ficção pode ser quase tão elucidativa como a realidade, sobretudo quando é escrita por pessoas que conhecem a forma como se “fazem salsichas”, isto é, como na guerra são tomadas decisões que afetam as vidas de milhões de pessoas. Exemplo disso é o livro “2034: A Novel of the Next World War”, que tem entre os seus autores o almirante americano James Stavridis e narra, com naturalidade, a obliteração de metrópoles como San Diego e Xangai.

Quer a guerra entre os EUA e a China seja fria ou quente, importa refletirmos sobre o que representa esta situação para Portugal e para a União Europeia. Mesmo que as duas superpotências cheguem a um entendimento que permita preservar a paz e a estabilidade – uma détente que vá ao encontro dos interesses de ambas as partes – as implicações para a Europa serão significativas.

Por um lado, a rivalidade com a China vai implicar um foco crescente dos EUA na Ásia, desviando para lá cada vez mais recursos militares. Num futuro mais ou menos próximo, a Europa terá de finalmente se defender a si própria, sob pena de ficar em desvantagem face à Rússia (a qual, ao contrário da China, é uma ameaça próxima e imediata para vários países europeus). Embora tenha privado a União de um dos seus membros mais capazes do ponto de vista militar, o Brexit torna mais fácil a implementação de uma verdadeira política de defesa europeia, que tem sido defendida por Berlim e Paris.

Por outro lado, a China é o principal parceiro comercial da União Europeia e qualquer guerra desta com os EUA terá consequências brutais a nível económico, que provavelmente serão superiores às da grande recessão de 2008 ou às da crise causada pela pandemia.

O desafio da Europa – Portugal incluído – é conseguir defender os seus próprios interesses, o que significa, neste momento, contribuir para a paz mundial sem abdicar dos seus valores e sem ser forçada a escolher lados num conflito que, até ver, não é seu. Por muito que alguns tentem converter a NATO numa aliança com alcance global, nunca é demais recordar que a organização existe para manter a paz e a segurança no Atlântico Norte, e não para defender os interesses de alguns países noutras partes do globo.

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