O sempre-em-pé

O uso de máscara, o distanciamento físico e a etiqueta respiratória são só para inglês ver e português respeitar. Neste caso concreto, de nada serve os partidos exigirem a demissão do ministro.

Por alturas do Dia Mundial da Criança lembrei-me de um dos raros bonecos que povoou a minha infância: o “sempre-em-pé”. Um boneco de cores garridas e forma cónica que retornava à posição vertical qualquer que fosse a intensidade e o sentido da força com que o derrubássemos. Daí o nome, mesmo que o boneco não tivesse pés, mas uma base arredondada onde aliás se encontrava a razão para o regresso à verticalidade. Algo que só viria a descobrir mais tarde quando a curiosidade se cansou de procurar explicações abstratas.

Quando a vida me levou para o caminho da investigação, fui mais lesto a perceber que havia muitos políticos aparentados com o referido boneco. Uma lista que não englobava apenas regimes de ditadura. Aqueles em que a dita dura.

De facto, mesmo em países democráticos e com eleições consideradas livres, encontrei, ainda que com menos frequência, verdadeiros dinossauros. Uma temática que continuo a investigar porque vejo nesta continuidade prolongada no Poder uma das justificações para a deterioração da democracia.

A forma como acompanho a vida – não apenas política – portuguesa já me tinha dado para compreender que há vários “sempre-em-pé” tanto nos órgãos do Poder Central como do Poder Local. Personalidades que esticam ao máximo legal a presença num órgão como forma de preparação para o passo seguinte que os conduzirá a outro cargo que lhes permita visibilidade e mordomias.

Face ao exposto, não posso dizer que me cause espanto o facto de António Costa manter no seu Governo alguns ministros que os portugueses há muito demitiram. O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, à cabeça da lista, tantas têm sido as situações em que a sua ação ou inação se têm mostrado desajustadas. Os católicos, quando batem no peito no ato penitencial, assumem que pecaram “muitas vezes por pensamentos, palavras, atos e omissões.

Desconheço se Cabrita é crente, mas isso não vem para o caso, até porque a Constituição reconhece o direito à liberdade de religião. Sei, isso sim, que mesmo quando não reconhece a culpa, são frequentes as situações em que os portugueses têm uma leitura totalmente contrária.

Por isso, e apenas no que concerne aos tempos mais próximos, não me espantou a forma como reagiu aos festejos do título por parte dos simpatizantes do Sporting Club de Portugal. A exemplo do que se passou com a realização da final da Champions no Porto e os mais do que previsíveis desacatos que os hooligans ingleses provocaram onde assentaram arraiais.

Que Portugal esteja a viver em estado de calamidade e que os portugueses sejam quotidianamente obrigados a respeitar regras de que os ingleses se autodispensam é algo que não parece incomodar o ministro. No caso em apreço, o uso de máscara, o distanciamento físico e a etiqueta respiratória são só para inglês ver e português respeitar.

Por isso, bem podem os partidos, mesmo aqueles que têm garantido a sobrevivência do Governo, exigir a demissão do ministro. Ou os agentes desportivos nacionais queixarem-se de discriminação por terem os estádios às moscas quando a final das Champions teve público. Ou, ainda, que o Presidente fale de uma bolha fracassada. A circunstância de se saber respaldado pelo primeiro-ministro dá a Cabrita a segurança do meu “sempre-em-pé”.

Até porque, voltando ao início, dou por provado que a teimosia de António Costa é mais forte do que a curiosidade de uma criança.

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