O sogro do século

A autoridade moral dos EUA para serem a polícia do mundo há muito que se esgotou. No entanto, os americanos vão usando tácticas de bullying e imposição das suas visões em territórios dos quais já se deveriam ter retirado há décadas.

O que têm Donald Trump e Peter Griffin em comum? Bem, além de serem ambos criaturas disformes a caminho de uma doença cardiovascular, profundamente desconhecedoras da complexa realidade que os rodeia e terem um QI e a maturidade emocional de uma bola de futebol americano, são o que se pode chamar um “Family Guy” (“homem de família”, na língua de Camões).

Ora, se Peter Griffin é uma personagem de desenhos animados mais ou menos engraçada consoante a tolerância de cada espectador a várias formas de insulto, Trump é demasiado real para dar vontade de rir; mas o resto é basicamente igual. E ambos têm relações bastantes peculiares com as respectivas filhas.

Numa atitude clássica de sogro mal-intencionado, Trump deu ao seu genro, um investidor e promotor imobiliário de 39 anos chamado Jared Kushner, a tarefa impossível de arranjar um acordo de paz entre Israel e a Palestina.

Este jovem, que entrou em Harvard após uma generosa doação de 2,5 milhões de dólares dos papás, terá feito uso dos seus vastos conhecimentos de construção e imobiliário para redigir o que modestamente chamou de “Acordo do Século”, um pseudo-tratado de paz para aquele que será o território de maior e mais complexa tensão sociopolítica do mundo. Um tipo bastante qualificado para o trabalho (e imparcial, visto que nem é judeu ortodoxo). Mas não nos preocupemos: Kushner diz que já leu “uns 25 livros” sobre o assunto.

Na realidade, este “acordo” tem muito poucos aspectos dignos de tal palavra. Kushner apresentou-o numa conferência “tipo-Davos” no Bahrain, onde se encontravam magnatas da banca, do sector imobiliário, de relações públicas e até o presidente da FIFA – mas nenhuma autoridade palestiniana.

Talvez imaginando-se um grande inovador, anunciou que, em vez de se focar num processo político para atingir o objectivo de paz, abordariam a questão de um ponto de vista económico, propondo investir cerca de 50 mil milhões de dólares na construção de infraestruturas e imobiliário (isto de uma administração que cortou fundos de auxílio aos palestinianos).

Começamos mal: é que o problema nunca foi económico. Os palestinianos não estão dispostos a vender a sua dignidade, nem abdicarão de permanecer nas suas terras a troco de uns dólares. Lá porque te comprou a entrada em Harvard, não significa que compre a paz do outro lado do mundo, Jared.

Kushner continuou a sua tour de promoção desta farsa – perdão, deste acordo – atacando as autoridades palestinianas, dizendo que a rejeição do documento seria mais uma “oportunidade estragada”, como todas as outras que lhes haviam sido dadas. Super conciliador e nada paternalista.

E, claro, os palestinianos, que desde 2017 não são consultados para a redacção do documento, só se fossem estúpidos aceitariam a imposição de uma suposta paz em que não têm controlo do seu espaço aéreo, não podem constituir um exército ou qualquer tipo de forças armadas, não podem fazer acordos internacionais sem a aprovação de Israel e vêem os territórios ocupados da Cisjordânia (que violam claramente o direito internacional e não são reconhecidos como Israel por nenhum país decente e imparcial) formalmente anexados por Israel, isto a troco de duas bolsas de deserto perto da fronteira com o Egipto.

Nem sequer Jerusalém seria a capital de facto deste pseudo-Estado palestiniano, já que estes teriam apenas meia dúzia de bairros já bem fora da cidade (um pouco como se os espanhóis agora reclamassem Lisboa e, para nos calar, dissessem que também era a nossa capital, mas só ficávamos com Fanhões e Bucelas – assinariam este acordo?).

A autoridade moral dos EUA para serem a polícia do mundo há muito que se esgotou. No entanto, e sendo o exército mais poderoso existente, os americanos vão usando tácticas de bullying e imposição das suas visões em territórios dos quais já se deveriam ter retirado há décadas. Neste caso em específico, vemos uma receita perfeita: actores brutalmente comprometidos com um dos lados do conflito, com um profundo desconhecimento e despreocupação pela realidade dos factos e uma agenda de interesses económicos e políticos (nada) oculta que guia as decisões tomadas.

É curioso o timing destes anúncios, numa altura em que Trump enfrentava um processo de impeachment e, sobretudo, Netanyahu era acusado de corrupção, ao mesmo tempo que se prepara para umas eleições críticas em Março, as terceiras no intervalo de um ano.

Como é que se pode achar que um país tem autoridade conciliadora quando muda a embaixada de Israel para uma cidade que a comunidade internacional nem reconhece como totalmente israelita ou reconhece a ocupação dos Montes Golã como legítima (sendo que é o único país do mundo com esta posição)?

Como é que um judeu ortodoxo que nunca fez nada de política internacional pode ser um mediador de um conflito milenar entre judeus e muçulmanos, sendo que ainda consegue ter tiradas como “o crescimento dos colonatos israelitas é imparável”?

Se Kushner e Trump querem prosperidade para a Palestina, experimentem pressionar os seus amigos israelitas a levantar o bloqueio a Gaza, a desocupar os territórios da Cisjordânia, dêem-lhes as rédeas do seu próprio destino e verão uma economia com potencial de crescimento, ao contrário do que sucede há anos. Oxalá.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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