Nos EUA este final de ano vai trazer mudanças importantes na frente económica, que vão marcar 2026. Para começar, a capitulação de Jerome Powell, depois do cerco de Trump, que assim vai finalmente ter poder absoluto sobre a política económica americana.

Na reunião desta semana do Open Market Committee (FOMC) a Reserva Federal americana (Fed) vai de novo descer a taxa de juro um quarto de ponto (à hora a que escrevo a probabilidade é 97,8%, contra 2,2% de não ser alterada); mais uma vez, o que é importante é a conferência de imprensa de Powell que se segue, para descodificarmos o que se aproxima. Lembremos que o shutdown da administração leva a não haver informação atualizada sobre a atividade económica, uma dificuldade adicional para o FOMC.

Mas três razões principais fazem antever a descida: o mercado de trabalho está a arrefecer; a inflação está próxima do objetivo da Fed; e Powell não quer falhar no balancear dos riscos entre inflação e crescimento económico depois do erro que cometeu quando considerou a inflação transitória. Mas há riscos: a inflação vem subindo desde abril, em setembro de 2,9% para 3%, o valor mais alto desde janeiro; mais, ainda estamos por ver o efeito total das tarifas; e vamos ter políticas fiscal e monetária expansionistas, um cocktail embriagante.

Como se não bastasse, vamos assistir ao fim do Quantitative Tightening, quando os ativos na carteira da Fed estão ainda acima dos 6,5 milhões de milhões de dólares (eram menos de um milhão de milhões quando o QE começou). A Fed vai deixar de continuar a “secar” a liquidez criada desde a era de Bernanke, isto porque o mercado do crédito está a passar por tempos complexos, de que as falências de First Brands e Tricolor são sinal. Na última a JPMorgan perdeu 170 milhões e o seu CEO disse “se vemos uma barata, há provavelmente mais”. É importante manter a liquidez para não provocar novas situações delicadas.

Paralelamente, Trump notou que o governo chinês controla mercados e commodities estratégicas pela posse das empresas, dominando cadeias de abastecimento. A administração Trump está então a adquirir capital em empresas; a tomada de 10% da Intel, para consolidar a indústria americana de semicondutores, é um exemplo. Outros são MP Materials, Lithium Americas e Trilogy Metals, do setor mineiro.

Trump está a ressuscitar o capitalismo de Estado nos EUA. Mais liquidez injetada e, com tarifas e défices orçamentais recorde, mais inflação, cedo ou tarde. Powell, que sai em maio, estará a rezar para que seja mais tarde.