O tempo não anda para trás

Antes de passar o atestado de incapacidade ao povo votante, seria importante que as sucessivas elites eleitas se dedicassem a estudar e a compreender estes fenómenos. O traço comum de reacção de ruptura com um status quo emerso em vícios, distância e hermetismo, convoca há muito a uma reflexão sobre a vitalidade do sistema.

Na semana passada, o The Guardian publicava um editorial de Gary Younge que nos colocava a mais pertinente da perguntas: acredita que que, caso houvesse um novo referendo que revertesse o Brexit, e um impeachment que libertasse o mundo de Donald Trump, o mundo ocidental voltaria a uma desejada “normalidade”?

Sim, a maioria de nós gostaria de uma reversão do Brexit e da reforma compulsiva de Trump. Sim, quase todos percebemos que são ambos sucessos do populismo que abominamos. Sim, sonhamos com o regresso a uma Europa natural e a uma ordem mundial coerente. Em ambos os casos, a via democrática do voto comprometeu aquilo que temos como interesses superiores dos povos. Aliás, a análise eleitoral fria diz-nos há anos que o populismo se tornou numa tendência incontornável. Enquanto a esquerda e os media politicamente alinhados gritam contra o crescimento da Frente Nacional, os eleitores argentinos elegeram Kirschner, os brasileiros escolheram Lula e Dilma, os bolivianos optaram por Morales e os venezuelanos puseram Chavez e Maduro no poder. Como se tratou sempre da eleição de vigaristas, torcionários e ditadores de esquerda, a opinião ocidental branqueou e a distância geográfica e cultural amortizaram o fenómeno. Mas, estava tudo lá. Era uma quastão de tempo até atravessar o equador. E assim aconteceu.

Antes de passar o atestado de incapacidade ao povo votante, seria importante que as sucessivas elites eleitas se dedicassem a estudar e a compreender estes fenómenos. O traço comum de reacção de ruptura com um status quo emerso em vícios, distância e hermetismo, convoca há muito a uma reflexão sobre a vitalidade do sistema. Hillary Clinton foi a caricatura deste sistema velho e cansado, um rosto de sempre em nome dos sempre, uma sobrevivente dos jogos de poder partidários, ancorada nos lobbies que foi alimentando, dona de um armário a transbordar de esqueletos, uma personagem das sombras que os eleitores querem ver iluminadas. A solução, o ponto de protesto e de fuga, foi o pistoleiro que iria varrer todos os males à bruta, o homem destemido que vem de fora para limpar a casa, alguém capaz de virar o jogo. Em todos os casos, Kirschner, Lula, Dilma, Morales, Chavez, Maduro e Trump, uma promessa de ruptura com o sistema, a interpretação oportunista, mas inteligente, do cansaço, do esgotamento do eleitor. Quem deu ouvidos ao insolente Farage, à esquerda reaccionária ou ao irresponsável BoJo, fê-lo nesse mesmo estado de esgotamento. Importando referir que, se na América Latina a democracia é relativamente jovem e teve vida atribulada, o Reino Unido e os Estados Unidos são das mais antigas e sólidas democracias do mundo.

Respondendo à pergunta retórica de Younge, é claro que o mundo não voltará a ser o mesmo. É claro que seria bom reverter o Brexit e saber Trump longe de qualquer decisão que nos possa dizer respeito, mas só por si pode valer de muito pouco. É claro que há já muito tempo se exige uma reforma do sistema que reconcilie o cidadão com as instituições, os eleitores com os eleitos, os povos com os seus governos.

A natureza do exercício do poder através do sistema partidário patrocinou o divórcio entre governantes e governados. Os partidos passaram de espaço de reflexão, discussão e pertença a viveiros de parasitas e agências de empregos. Os chamados aparelhos partidários deixaram de discutir ideias, abandonaram a participação cívica e dedicam-se a arregimentar tropas para de modo acéfalo encher praças e abanar bandeiras no laudo do dirigente de ocasião. Os chamados operacionais pouco divergem de chefes de claque, dependendo da benesse que recebem e contando militantes como quem conta cabeças de gado. É um mundo pouco frequentável para gente de bem, e só sublinha a nobreza dos bons exemplos que ainda resistem aqui e ali, num ou noutro partido, estoicamente ainda em nome das ideias, dos princípios e dos valores; a estes faço a devida vénia.

O quadro político português vive neste perigoso pântano. Os partidos portugueses que professam na sua carta fundadora a defesa da democracia padecem, sem excepção, deste mal. Desvalorizaram as estruturas, escolhem os eleitos em directório fechado e sem preocupação com a representatividade dos eleitores, exercem o poder em coordenação e satisfação de outros poderes, e em total divórcio com o povo. Curiosamente, quem mais se esforçou por contrariar esta lógica foi o único Primeiro-Ministro de um país europeu intervencionado pela troika a vencer as eleições a que se propôs. Mas, lá estava o sistema, os de sempre, a transformar um derrotado em mandante, a usurpar o poder para satisfação dos dependentes, ante o aplauso dos que se maravilham com a habilidade dos finórios.

Temos tido a sorte de a memória da ditadura não permitir grandes investidas, nem haver especial apetência pelo risco, apesar do cansaço. O populismo português varia à direita entre o deslumbramento saloio com a sedução do povo através das revistas cor de rosa acompanhado de um breviário de pequenos pensamentos avulsos para agradar aos diferentes públicos nas diferentes ocasiões, e a obstinação contabilistica evocativa de um proto-Salazar sem cultura, nem ideias. Já à esquerda, promete-se a esmo, mente-se sem pudor, diz-se que está bem o que se desmorona aos olhos de todos, indo até às máscaras que caem todos os dias aos trotskistas-populistas cá do burgo. O comportamento dos diferentes actores não podia ser menos digno da confiança do Povo, aliás, parece que a grande estratégia do nosso presente será conseguir passar entre os pingos da chuva. Ideias, nem vê-las. Princípios, estão fora de moda. Coragem, dispensa-se. Ouvir o povo, só se for em ambiente controlado, para o ignorar a seguir.

Francamente, aqui e lá fora, mereciamos mais. Muito mais. O tempo não anda para trás.

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