O trimestre europeu

Eleições europeias, Brexit e focos de euroceticismo local podem trazer ao de cima incerteza que os mercados poderão levar a sério. Em todo o caso, uma recessão parece fora de hipótese.

Os próximos meses poderão ser de incerteza na Europa, com os fatores geopolíticos a regressarem ao palco central das discussões dos observadores internacionais. Desde a turbulenta viagem de saída do Reino Unido da União, que poderá construir um processo de contrarrelógio complexo, à importância que as eleições europeias poderão ter na definição dos equilíbrios futuros entre euroceticismo e ímpeto reformista nas instituições europeias, e que depois podem também influenciar a agenda eleitoral em países de relevo na União Europeia.

É o caso de Itália, em que este resultado poderá mexer com o sentimento dos investidores internacionais, que aliás estão já a descontar um cenário macroeconómico mais fragilizado, que, apesar das condições favoráveis em termos de política monetária, podem, em conjunto com a materialização dos riscos atuais, acabar, no limite, por prevalecer e espoletar um ciclo de contração da atividade. E parece evidente que, em termos de agenda mediática e política, o segundo será sem dúvida “o trimestre europeu”.

Os riscos geopolíticos voltam ao palco central, Brexitmess à cabeça

Durante muito tempo falou-se de diversos cenários relacionados com as probabilidades do Reino Unido sair de forma ordenada (soft) ou de forma desordenada (hard), ou até de ser revertido através de uma repetição do referendo (Briback). Afinal, o que acabou por verificar-se é uma imensa confusão política relativamente ao processo de saída da União Europeia (UE), com verdadeiro requinte kafkiano, isto é, uma verdadeira Brexitmess.

Sem capacidade para convencer o parlamento a aprovar o pré-acordo com a Comissão Europeia, a primeira-ministra britânica Theresa May conseguiu uma pequena extenção sem condições dos parceiros europeus até ao dia 12 de abril, data a partir da qual a União avaliará o ponto de situação tendo em conta os avanços alcançados no Reino Unido neste capítulo, e tomará decisões de acordo com os mesmos. Para além desta data a UE ainda se mostrou disponível para prolongar o adiamento até dia 22 de maio, mas na condição de, até 12 de abril, ser aprovada legislação relevante que permita uma maior clarificação do que efetivamente o parlamento da Velha Albion pretende fazer crer. Sem isto há pouca margem para outro cenário que não seja o de saída sem acordo da União Europeia. Ou haverá?

Algumas vozes começam a levantar-se em torno da necessidade de reiterar a decisão num segundo referendo, um que incluísse mais opções, nomeadamente saída com e saída sem acordo. A questão é que, por um lado, seria preciso negociar essa opção de novo com uma União Europeia que pode tornar-se menos tolerante com o Reino Unido. Por outro lado, e talvez mais relevante, não é certo que mais um referendo fosse efetivamente mais revelador – sondagens recentes mostram um cenário misto nesta matéria – desde fevereiro, a percentagem de ingleses que pretendem um novo referendo subiu de 19% para cerca de 28%, que ainda assim é demonstrativo de algum consenso em torno do respeito pela decisão de saída.

Uma coisa parece certa: quanto mais durar a incerteza política quanto ao processo de saída, maior será o ruído em torno das decisões de investimento. Estas não só podem prejudicar o crescimento do Reino Unido numa primeira linha, como também criam algum ruído em torno da zona euro, dada a pouca clarificação que o processo acarreta.

As eleições europeias de maio são um momento definidor para o resto do ano

Tradicionalmente, as eleições para o Parlamento Europeu são aquelas que menos valor aporta aos europeus, apesar da sua influência ser mais decisiva do que é comummente percepcionado. Este ano, os eleitores poderão dar mais visibilidade ao ato eleitoral e até marcar uma nova agenda estrutural para a União Europeia, indo além do voto de protesto.

A diferença estará, numa primeira fase, na linha divisória ideológica que se encontrava muito associada ao tradicional confronto entre centro-esquerda e centro-direita, e que deverá ceder lugar a uma nova frente. Mais concretamente, os europeístas em confronto com os eurocéticos. Como o centro político, tradicionalmente globalista e pró-europeu, tende a perder peso, o debate sobre as reformas estruturais na zona euro – onde se adivinham também tensões relacionadas entre interesses da Europa periférica e da Europa do centro do euro – poderá ganhar outra dimensão, proporcional ao peso que virão a ter as forças políticas mais eurocéticas.

Até agora, a agenda de uma União mais integrada e reformista tem prevalecido sobre os receios de uma desintegração do projeto europeu e, para isso, muito tem contribuído a capacidade do Banco Central Europeu (BCE) em manter o sistema financeiro estabilizado. Adicionalmente, os passos que foram dados no sentido de construir uma União Bancária e assegurar uma espécie de colete à prova de bala em torno da moeda única, apesar de não estarem completos, deram um sinal muito favorável aos mercados financeiros acerca do que é o guidance futuro.

Estes progressos estarão agora em teste, num momento em que existe uma fragmentação elevada do sistema político, e onde o centro político europeísta está sob grande pressão e pode perder capacidade para liderar um consenso de maior integração europeia. E de acordo com as sondagens mais recentes, o tradicional centro político europeu deverá ter cerca de 45% dos eleitos, perdendo a maioria, o que é inédito. O PPE (centro-direita) teria 183 lugares, enquanto os Socialistas Europeus atingiriam apenas 135 lugares. No campo das famílias pró-europeístas sobrariam os Liberais do ALDE, em aliança eventual com o movimento En Marche, de Macron (93 lugares caso se sentem juntos), essenciais para obter consensos a favor da integração.

De Itália pode nascer novo rastilho

O desenlace das eleições europeias pode também ter implicações de relevo em alguns dos países do euro como é o caso da Itália, que tem um governo suportado por uma maioria eurocética, e onde um mau resultado destes partidos pode desencadear eleições antecipadas, mas onde um bom resultado dos eurocéticos pode conferir força para um braço de ferro com a Comissão Europeia em 2020 – na medida em que existem grandes desafios em matéria orçamental – e assim atrasar reformas estruturais de relevo.

No limite, e num momento em que o país se encontra economicamente fragilizado, poderá colocar de novo em cima da mesa a retórica anti-UE, sobretudo se o atual governo quiser utilizar medidas que quebrem os compromissos fiscais com Bruxelas, no sentido de conquistar maior popularidade.

Por outro lado, o próximo executivo espanhol – o país vai a eleições em final de abril –  dificilmente não integrará partidos com matriz eurocética, seja o Podemos à esquerda ou o recém-criado Vox à direita. Isto significa que quem quer seja o vencedor nestas próximas eleições, se quiser formar governo de acordo com a matriz ideológica tradicional (esquerda versus direita) terá de ceder a agendas menos favoráveis ao projeto europeu e a reformas estruturais que permitam maior integração e com capacidade de proteger a Europa de futuros choques.

Conjuntura económica complexa, apesar de clima mais acomodativo

A zona euro deverá continuar a ser negativamente impactada pela procura externa, que pode ditar um abrandamento da atividade e do crescimento das economias do euro. Existem leituras que dão conta de alguma resiliência da procura privada, em virtude de um mercado de trabalho mais robusto, capaz de gerar consumo.

Também importa salientar que neste jogo de equilíbrios para os próximos trimestres os europeus contarão com o clima fiscal mais amigável de décadas, e que pode ajudar a equilibrar um pouco o menor ímpeto esperado por parte da atividade industrial e da quebra ao nível da procura externa, que pode também fazer com que o investimento possa recuperar nos próximos trimestres.

Ainda assim, as previsões são muito moderadas, com o PIB a ficar muito próximo do ponto percentual – o BCE reviu recentemente em baixa as suas estimativas para a zona euro para 1,1% em 2019 – o que significa que muito pode vir a depender deste jogo de equilíbrios, onde o desenlace de alguns dos fatores geopolíticos pode ter maior peso do que teve até agora.

Uma recessão parece fora de hipótese, mas incerteza pode pesar nos investimentos

A quebra da procura externa cria um cenário complexo de analisar, e uma conjuntura económica mais frágil na Europa, sobretudo durante o primeiro semestre. Estas condicionantes, agregadas a uma expectativa de redefinição dos equilíbrios de poder, não apenas nas eleições para o Parlamento Europeu mas também ao nível da política interna dos países do euro, vai colocar em questão os consensos tradicionais em torno da necessidade de criar mais reformas na Europa que permitam reconquistar competitividade a nível global, muito necessária para garantir o statu quo social europeu nas próximas décadas.

As condicionantes geopolíticas explanadas podem condicionar os próximos meses, onde eleições europeias, Brexit e focos de euroceticismo local podem trazer ao de cima incerteza que os mercados poderão levar a sério, se a perceção sobre o impacte na economia europeia for tal que levante a “lebre” de uma recessão. E isto poderá pagar-se numa primeira linha com maior volatilidade nos mercados de risco, sobretudo depois de um princípio de ano muito promissor.

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