O “tudo que for necessário” 2.0 do BCE, versão Lagarde

‘Bazuca’ de 750 mil milhões do BCE inverteu subida dos juros da dívida de Portugal. O programa pode, contudo, fazer esgotar o stock de dívida de qualidade e criar procura por maior risco, avisam analistas.

A experiência desportiva na juventude fomentou a capacidade de resistência, reconheceu Christine Lagarde há alguns anos. A prática da natação sincronizada, a nível internacional, também terá ensinado à atual presidente do Banco Central Europeu (BCE) outro valor, o da coordenação.

Esta quarta-feira, quando lançou uma ‘bazuca’ para conter o impacto do coronavírus na economia, com a compra de 750 mil milhões em ativos do setor público e privado, este ano, Lagarde estava precisamente a fazer isso, a sincronizar. Após a Reserva Federal ter cortado os juros duas vezes este mês (um luxo a que a zona euro já não se pode dar) e anunciado a compra de ativos no valo de pelo menos 700 mil milhões de dólares, Lagarde tinha de acertar o passo com Jerome Powell.

O Conselho de Governadores disse que fará “tudo o que for necessário no âmbito do seu mandato”, num eco do que Mario Draghi dissera em 2012 sobre salvar o euro. No meio da incerteza provocada pela pandemia à escola global, que está a levar a zona euro para uma recessão, enquanto os governos aumentam os gastos orçamentais, o BCE garantiu estar empenhado em desempenhar o seu papel.

Para Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, o objetivo do BCE “é manter a estabilização do mercado de dívida em particular, e dos mercados financeiros em geral”. O banco central “está a responder à significativa procura por liquidez e a reforçar o suporte aos mercados financeiros”.

O economista destaca que os valores que o BCE vai ceder ao mercado “são um reforço bastante significativo e, para já, parece que serão suficientes”, mas tudo irá depender da evolução da pandemia Covid-19. A medida foi elogiada por diversos líderes europeus, com o presidente do Eurogrupo, Mário Centeno, a saudar a decisão, numa altura em que “a União Europeia está a chegar ao momento de combater esta pandemia com ações coordenadas”. Parece ter também agradado aos investidores, ou adormecido alguns receios, com as yields da dívida soberana dos países periféricos a caírem, no mercado secundário.

Os juros da dívida portuguesa a 10 anos no mercado secundário chegaram a negociar esta quinta-feira nos 0,93%, tendo fechado o dia nos 1,09%. A queda foi acentuada depois de ter encerrado a sessão de quarta-feira a negociar nos 1,45%, máximos de cerca de um ano, numa subida que se vinha a acentuar desde segunda-feira. Também a dívida italiana a 10 anos caiu para 1,716% e a espanhola para 0,836%.

A subida das yields das obrigações da periferia da zona euro antes do anúncio do BCE refletia “o receio e a preocupação por parte dos investidores”, diz Francisco Alves, analista da corretora Infinox.

Filipe Silva, diretor de gestão de ativos do Banco Carregosa, destaca que num contexto de incerteza a subida dos juros, no mercado secundário, “acaba por ser um movimento natural, que pode atingir valores mais elevados por força das circunstâncias”.

“Poderia ser uma preocupação se viermos a atingir níveis estratoféricos, como aconteceu no passado, e voltarmos para níveis de financiamento incomportáveis”, assinala.

Sem ‘stock’ para comprar?
O Pandemic Emergency Purchase Programme (PEPP) terá um envelope global de 750 mil milhões de euros e as compras serão realizadas até ao final de 2020 e irão incluir todas as categorias de ativos elegíveis no atual programa de compra de ativos, o APP.

Para as compras de títulos do setor público, a alocação de referência entre as jurisdições continuará a ser a chave de capital dos bancos centrais nacionais. Ao mesmo tempo, as compras sob o novo PEPP serão conduzidas de forma flexível.

O BCE decidiu ainda expandir a gama de ativos elegíveis no âmbito do programa de compra do setor corporativo (CSPP) para papel comercial não financeiro, tornando todos os papéis comerciais com qualidade de crédito suficiente elegíveis para compra no CSPP. Além disso, irá facilitar os padrões de colaterais ao ajustar os principais parâmetros de risco do quadro de colateral, incluindo dessa forma crédito relacionado com o financiamento do setor corporativo.

No entanto, os analistas consultados pelo Jornal Económico sublinham que a ação do BCE também acarreta riscos.

“Os riscos de descredibilização das moedas fiduciárias não é de agora e o balanço do BCE quase quadruplicou na última década, atingindo em dezembro de 2019 os 4,7 biliões de euros”, adianta Paulo Rosa. O economista sénior do Banco Carregosa exemplifica que até ao final de 2020 estará acima dos 5,5 biliões de euros, o que corresponde a cerca de metade do PIB da zona euro.

Alerta ainda para um outro risco que merece atenção redrobada. “As compras de dívida do BCE vão esgotando o stock de dívida de qualidade (investment grade) no mercado, levando os investidores a escalarem no patamar de risco, reforçando as compras e a procura dos investidores por dívida de maior risco, as denominadas high yield”, diz.

Os investidores terão, assim, nas high yield mais rentabilidade, considerando que “cada vez mais o investment grade é menos rentável”, já que em muitos casos tem retornos negativos. “Um aumento do risk-on no mercado”, sinaliza.

Para os analistas do ING, o PEPP funciona mais como um backstop’ do que um modelo habitual de Quantitative Easing. “O PEPP é uma versão menos eficiente do controlo da curva da yield adotada pelo Banco do Japão e pela Reserva Federal da Austrália para limitiar a rendibilidade das obrigações”, realçam Antoine Bouvet e Benjamin Schroeder.

Artigo publicado na edição de 20-03-2020 do Jornal Económico. Para ler a edição completa, aceda aqui ao JE Leitor

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