Com a eleição de António José Seguro para a Presidência da República impunha-se uma mudança de estilo, mais do que de ciclo, que não os marca, apenas acompanha. Foi também por isso que foi eleito. À presidência dos afetos, das selfies, da intervenção pública constante, do jogo no palco mediático, sucede uma de maior peso institucional, de recato e de intervenção que se vai querer cirúrgica. É recorrente que assim seja, aconteceu antes, porque depois da tecnocracia de um Aníbal Cavaco Silva veio o coração e a razão de um António Guterres. “As pessoas não são números”, lembram-se? A seguir a Jorge Sampaio regressou Cavaco Silva. Uma década, dois mandatos de exercício de um cargo muito personalizado, unipessoal, esgotam, o que foi notório no caso de Marcelo Rebelo de Sousa.

É dos livros que o excesso de oferta desvaloriza a mercadoria. A palavra não é exceção. É certo que Seguro não abdicará da proximidade com a população, mas vai querer tê-la com as presidências abertas e uma atuação mais focada.

A mudança mais notória será sentida, no entanto, na gestão do silêncio e da voz, seguindo o ditame do Livro de Eclesiastes, de que tudo tem o seu tempo e há tempo de estar calado e tempo de falar. O silêncio passa a ter valor, é certo, mas a palavra, essa é que sai reforçada. Porque também é dos livros que a escassez valoriza. Mais ainda quando o bem é de primeira necessidade, que continuará a ser, porque a instabilidade e a fragmentação do quadro político não desapareceram, terão tendência para se acentuar, com o entrincheiramento dos extremos, mas sempre com uma abertura para a mudança. O que realça o papel do Presidente da República. E a sua palavra.